segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Arnaldo Baptista "Let it bed" (L&C Editora, 2004)


               Desde “Singin’ alone” (Baratos Afins, 1982) Arnaldo passou por várias, perambulou pela capital paulistana, gravou um disco terapêutico, “Disco Voador” (Baratos Afins, 1986), ganhou tributos, foi reconhecido internacionalmente e se isolou em Juiz de Fora/MG.

                      Voltou ao disco em 2004, pelas mãos cuidadosas dos produtores John Ulhoa, Rubinho Troll, da dupla Digitaria, e pela direção artística de Lobão, então “messias dos independentes”.

               Todo o processo de confecção do disco levou dois anos, mas “Let it bed” já estava na cabeça e nos planos do próprio Arnaldo desde antes. Musicalmente é um trabalho bem resolvido, mas sem esconder a condição do próprio Arnaldo, em eterna recuperação e milagrosamente produtivo.

                    Abre infantil e rural em “Gurum gudum”. Segue ingênuo na interpretação para o tema cantado pelo Pica-Pau, “Everybody thinks I’m crazy” com um Fred Astaire trôpego sapateando ao fundo. Propicia ao ouvinte uma viagem na mente do próprio Arnaldo em “LSD”, canção bastarda dos lindos sonhos delirantes de Lucy no céu com diamantes.

                 “Cacilda” saiu de uma fita cassete e lembra os tempos hard/heavy de fins dos 70’s, originalmente gravada apenas com piano e voz, recebeu instrumentos adicionais no estúdio por John. Uma das poucas que tiveram a interferência da banda invisível do estúdio. A faixa foi pescada do acervo do Luiz Calanca, que tem mais uma boa quantidade de horas inéditas do Arnaldo no seu baú de tesouros. 

                  Aqui Arnaldo tocou tudo. Não há participações especiais, além dos produtores. Em “To burn or not to burn” experimentos bigbeat dão num insight dançante. A melancólica e bela “Bailarina” foi umas das então novas composições. “Encantamento” faz par em melancolia com outros bons momentos do disco que se encerra amadurecido e triste em “Tacape”, outra que saiu da K7, preservada em sua estrutura sonora original.
Folha de S.Paulo, 31 de agosto de 2004

                  A produção do disco reuniu muitas horas de gravação, picotadas e editadas por John e Rubinho. Certamente causou estranhamento ao próprio Arnaldo, mais afeito às válvulas do que aos efeitos que a produção digital inseriu em suas pedras brutas.

               “Let it bed” chegou às bancas de jornal, ao valor de R$ 12,90, em setembro de 2004. Legitimou um projeto que já havia rendido excelentes trabalhos, a revista Outracoisa. Recebeu críticas elogiosas e adentrou nas listas de melhores daquele ano. Merecidamente. Um trabalho que já nasceu histórico.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Thaíde & DJ Hum "Pergunte a quem conhece" (Eldorado, 1989)


               O primeiro álbum da dupla Thaíde e DJ Hum foi gestado após a boa repercussão que o primeiro disco rap nacional, “Hip Hop Cultura de Rua”, teve. Nele Thaíde apareceu em disco pela primeira vez.

             A aproximação com DJ Hum veio depois, por intermédio de Nasi. O vocalista do Ira! estava encantado com as possibilidades musicais do rap, a ponto de incluir um rap no disco “Psicoacústica”, e organizou festas e encontros com o pessoal que ficava na estação São Bento, que outrora fora ponto de encontro de outra turma jovem da periferia paulistana, os punks.

              Nasi e André Jung produziram “Pergunte a quem conhece”. Um disco que também reuniu uma boa quantidade de convidados da cena funky/rap/vanguarda de São Paulo, tais como MC Jack, Skowa (A Máfia), Marcio Werneck (Fabrica Fagus), Tuba (Clínica), Marco Mattoli, Bocato, além da formação do Ira!.

             O disco tem uma sonoridade bem fraquinha. Sobram participações. Falta groove e peso. As letras também não são as mais inspiradas e algumas esbarram numa ingenuidade, “Minha mina”, da qual o rap nacional tratou logo de se desvencilhar. “(Claudio) eu tive um sonho” beirou o hit, a homenagem ao amigo rapper assassinado recebeu uma releitura de Marcelo D2 para o disco “Acústico MTV”, 15 anos depois.
Bizz, ed. 51, outubro de 1989

           . “Coisas do amor” não encanta, e passa como uma investida da dupla no funk-charm. Enquanto “Consciência” traz um riff de guitarra, o que remete ao Miami Bass, influência notável para os primeiros anos de rap brasileiro. Em “Final dos tempos”, levada praticamente com percussão eletrônica e baixo, faltam até os obrigatórios scratches e vup-vups do gênero.

               “Pergunte a quem conhece” vendeu bem na época, ultrapassou as 20 mil cópias, e consagrou a dupla como o primeiro nome do rap paulistano a romper barreiras das rádios comerciais e casas de show.

               Não é o melhor trabalho de Thaíde & DJ Hum - que gravaram outros bons discos na década seguinte, sendo o disco “Preste atenção”, de 1997, o ápice do trabalho conjunto – mas é uma boa introdução para quem quer conhecer sobre os primeiros anos do rap nacional.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cherry Bomb "Bombs to you..." (Bagaço Records, 1998)


                Primeiro disco do trio de Londrina/PR. Um álbum que transita entre punk 77, Ramones e mod, tudo temperado com um pouco de bubblegum.

              “Bombs to you...” traz uma banda quase apaixonada, sem medo de tratar de temas banais e com um inglês bastante limitado, algo que não assusta nenhuma banda nacional que tenta se enveredar pelo idioma de Paul Weller. “Crazy for you” trama uma introdução à New York Dolls, mas logo se derrete toda.

            Os melhores momentos do disco estão nas baladas descaradas, como em “My mind turns around the city”, que mostra que a banda ensaiou direitinho os coros e backing vocals. No boogie/pub rock de “C-Rex man” e na certeira “I hate your friends and U2”. 

              É um disco bastante acessível, poderia render algum hit, que não houve, mas que não deixaram de ser hits das apresentações da banda. E olha que eles tocaram bastante enquanto mantiveram a banda ativa. Hoje, se apresentam esporadicamente.

          “Bombs to you...” foi lançado pelo selo Bagaço Records e só está disponível no formato LP. Ponto pro Cherry Bomb, na época em que preparou sua estreia em vinil poucas bandas se arriscavam no velho formato físico, quase renegado ao lixo. Certamente é um disco procurado nos dias de hoje.

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Wado "O manifesto da arte periférica" (Dubas, 2001)


                O primeiro álbum solo do Wado, apelido de Oswaldo Schlickmann, foi uma das maiores surpresas que a música independente brasileira poderia dar para o início do século XXI.

              Apesar de catarinense, Wado é radicado em Maceió/AL, e sua construção musical não se localiza em nenhum lugar próprio, mas sabe-se que neste lugar incontido deve ter um belo mar que embala todas as composições, por vezes é possível ouvir um barulho do mar que não está em parte alguma do disco.

           As 11 músicas são curtas e em menos de meia hora você já pode reiniciar toda audição. É um passeio por um repertório de ouro. Fica até difícil destacar algumas canções, mas vale indicar “Alagou as”, que ganhou um vídeo clipe na época, e as quase vinhetas emendadas, a ótima “Feto” com a calmaria de “Diluidor”. 

            As boas letras não apelam para refrães fáceis, mesmo quando poderia se arriscar em formatos mais comerciais/acessíveis.  

           Tudo aqui é feito basicamente de samba e musica brasileira, mas tudo muito diluído. “Uma raiz, uma flor” é um dos poucos sambas do disco. O groove (sem samba) “Ontem eu sambei” tem um dos melhores refrães do disco e “A linha que cerca o mar” poderia tocar facilmente em qualquer rádio, como anunciou o CD que veio encartado na primeira edição da revista Frente e que pinçava esta canção primeiro pé na porta de Wado.

             Apesar da aparente calmaria, o álbum também é político. Uma questão de afirmação que está relacionada com a turma de Alagoas que então buscava seu espaço na música nacional. Também justificada no título.

            “Manifesto da arte periférica” foi lançado pelo selo Dubas Música e ganhou distribuição da Universal Music, o que não garantiu com que o disco fosse bem distribuído. 

              Saudado pela mídia especializada como um dos nomes promissores da MPB do novo século, Wado trilhou disco a disco seu caminho até ver sua música reconhecida pelo público.

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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Nut (Cogumelo Records, 1995)


                Quem responde pelo Nut são duas figuras conhecidas do underground nacional dos anos 90. Um veterano do cenário heavy, Wladimir Korg (Chakal, The Mist, Junkie Jesus Freud Project) e Ronaldo Gino (Virna Lisi). Da união dos dois rendeu o Nut e seu único disco.

              É um trabalho bastante experimental, a começar pela abertura mezzo oriental de “Catatonia”. Na sequência, batidas pulsantes à heavy de Seattle dão as caras em “Hourglass” e “Insane brain”.

           As músicas são longas e dialogam com instrumentos atípicos no rock, como o berimbau em “the last unicorn”. Noutros arranjos apontam para uma pesquisa acústica de timbres de cordas, “Delirium”, e efeitos de estúdio. “In jail” se arrisca no idioma pátrio da dupla, e se dá mal.

             O disco foi lançado pela lendária Cogumelo Records, selo que sempre recebeu as ideias musicais de Korg, e teve pouca divulgação por parte da gravadora, que na época abria seu catálogo para trabalhos mais distante do metal que lhe dera o sucesso comercial dos primeiros anos. Caiu no esquecimento público tão logo chegou ao “mercado”. Um disco que passou despercebido e que ainda figura no limbo do rock nacional.

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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Cachorros das Cachorras (Independente, 1997)



                    Este é o único disco de uma das principais bandas de Brasília da década de 90, Os Cachorros das Cachorras. 
      
                 Álbum totalmente integrado com a renovação da música brasileira da segunda metade da década de 90, repaginada esta que envolve os projetos regionalistas/globais anunciados pelo manguebeat poucos anos antes, e da nova MPB, aqui representada pela participação do Chico César em "O sexo dos animais (Vovô ja teve volúpia)", também adaptada no repertório do Zeca Baleiro.

             O álbum é cheio de informação, musicalmente variado, transita entre vários gêneros sem medo, tem bolero, reggae, levadas de maracatu, maxixe, rock e "um tiquinho assim" de forró. Os arranjos de sopro demonstram uma preocupação com a construção musical do disco, que soa grande.

              Algumas letras são bem humoradas e provocativas, revelaram um dos bons compositores daquela geração, Gérson Deveras, ou KaphaGérson. O reggae "O amor louco de pedra (mancoeba's reggae)" é hilariante.

              O álbum Os Cachorros das Cachorras também contou com a participação de uma das maiores vozes da música brasileira. Abaixo, Gérson dá detalhes do dia em que Nelson Gonçalves gravou "Baião de dois Bolero-lero".


Naquela mesa (de som) tava faltando ele

                                                                                              (por Gérson Deveras)

                             Foi uma aventura muito espontânea a de gravar com o Nelson Gonçalves nos idos de 90. Assistimos a um show dele dentro de um projeto do qual também participamos chamado Temporadas Populares e como tenho uma música chamada Baião de Dois Bolero-lero que eu entoava imitando o Metralha* e que entraria no nosso disco, eu e o Alfredog (Alfredo Bello), resolvemos convidá-lo a gravar conosco, com fé em nosso trabalho e no altruísmo daquele sujeito sensato e positivo com quem nos deparamos. 

                     Ele topou fazer a gravação de pronto, com a mesma disposição de um motorista que pára para dar carona a alguém num reflexo de bondade súbita. Disse que o procurássemos no hotel no dia seguinte e assim o fizemos, munidos de um gravador dat, cedido pelo amigo pianista Ricardo Nakamura. Ao subir para o seu quarto, autorizados por ele, recebeu-nos se esgueirando, com metade do corpo atrás da porta, provavelmente pra esconder sua lendária prótese peniana, pois estava de ceroula. Pediu que o esperássemos na barbearia do hotel. 

                   Desceu em poucos minutos meio pigarreando, sentou-se na cadeira do barbeiro, tomou os óculos do mesmo emprestado e lendo a letra que eu havia anotado numa folha de papel, pediu que eu repetisse umas duas ou três vezes a melodia e gravou dois trechos da música com a precisão de um exímio espadachim, sem no entanto deixar de observar o inusitado da situação num comentário que reproduzimos na track: "tsé mas isso nunca aconteceu comigo na minha vida, é a primeira vez". Primeira e única. Viva o eterno Boêmio do Brasil!

* apelido que o Nelson tinha por causa da gagueira, flagrante quando não cantava 

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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sonic Disruptor "Poppers" (Open House, 1996)


                      O Sonic Disruptor fecha a quina das principais guitar bands brasileiras dos anos 90 e “Poppers” é seu único disco.

                       O quinteto era nome fácil em shows do underground paulistano da época. Também era frequente na mídia que cobria a movimentação noturna da capital paulista, além dos fanzines.

Sonic Disruptor (Nota: Não sei quem é autor da foto)
                “Poppers” abre com a bela “Cover star” tão apropriada ao gênero guitar/shoegaze que poderia passar tranquilamente como canção perdida de algum disco do Galaxie 500. “Plastic sunny car” é o “hit” do disco que também traz outras canções estreladas, como “Angel wheels” e “Sweet cool (Acid test)”.

               Tudo cabe bem à proposta sonora da banda, até mesmo quando tangenciam partes etéreas, como em “Solipsism”, que emenda com “Emigravity”, e no garage rock “Maverick”, que encerra o álbum.

            A produção de “Poppers” ficou a cargo do Kid Vinil, entusiasta da banda de Guarulhos/SP e guru da turma do shoegaze nacional dos anos 90. O lançamento é do próprio selo da banda, a Open House. Se você encontrar este álbum em algum lugar, não duvide, leve “Poppers” para casa!

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Okotô (Eldorado, 1988)



             
          O Okotô chamou a atenção da mídia musical nacional assim que foi formado, mais pela curiosidade de ser uma dupla, pelos instrumentos inusitados, Kotô e Shamisen, e pelas influências orientais do casal.

Bizz, ed. 52, novembro de 1988
              O duo formado por Cherry Taketani e André Fonseca, ex-guitarrista da Patife Band, não demorou para entrar em estúdio e registrar suas músicas que transitavam entre o pop oriental, ainda desconhecido por aqui, e uma new wave sintetizada. Tal como uma ponte entre as influências dos pós-punk e o lado “new progressive” incutido na própria new wave. Foram sub aproximados de nomes da new wave paulistana, notadamente o Metrô, como a resenha de Arthur G. Couto Duarte (ao lado) admite, erroneamente.

           As letras em português, exceto "Xixiun-Ki", são abstrações e marcam as melodias pontuadas pela percussão minimalista que acompanha as canções, aí está o lado do pop oriental que foi mal compreendido por aqui. Todas as composições são da dupla, com exceção de '33 rotações", que tem letra da modelo Bronie Lozneanu, e da instrumental "Too young chineses", adaptação do tema de domínio público.

             O disco marcou a primeira fase do Okotô, que nos anos seguintes seguiu carreira discográfica bissexta e bastante distante da proposta de seu álbum de estreia.


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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Psycho Drops "Medo de ninguém" (WEA, 1996)


             Você deve estar pensando: O que um disco da Warner faz num blog sobre discos independentes brasileiros? 

Showbizz, ed. 132, julho de 1996
             Digo-lhe que a segunda investida discográfica do Psycho Drops não foi planejada para fazer parte do catálogo da Warner, e sim do Banguela Records, empreitada de Carlos Eduardo Miranda em parceria com alguns membros do Titãs que contratou o Psycho Drops pouco antes de decretar o fim de atividades do selo.

            Ruim pro Psycho Drops, que levou mais um ano para ver seu disco em português ser lançado. Ruim também para a Warner que assumiu a batata quente do Banguela e mal trabalhou “Medo de ninguém”, o disco que esgotou todo o barulho e diversão que restava ao quarteto.

             Para não duvidar que o disco poderia/deveria ser chancelado pelo Banguela, basta ouvir a canção que abre o álbum, uma versão heavy para “Coroné Antônio Bento”. Mas o amálgama do rock com algum ritmo nacional parou por aqui.

           “Estou só” aproxima a banda de um pop fácil, os arranjos vocais lamentavelmente lembram duplas sertanejas notáveis da década de 90. Pule essa. Pule as seguintes também. “Matar você” deve ter alguma referência remota em “Jessica Rose”, do Cascavelettes. 

           
            “Estarei por perto” é pavorosa, até parece música gospel. A segunda parte do álbum traz músicas rápidas, alguns hardcores, como “Estatal”, “Raiva” e “Treta”, e homenagens aos primeiros anos do punk rock nacional, as releituras de “Vida Ruim”, do Ratos de Porão, e “Delinquentes”, do Fogo Cruzado, ambas presentes no precioso “Sub”. Mas nada aqui é suficiente para fazer chover nesse deserto, que não traz medo pra ninguém.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Cólera "Tente mudar o amanhã" (Ataque Frontal, 1985)


                  Depois de seis anos de atividade, participação nas três primeiras coletâneas de punk rock nacional – “Grito Suburbano”, “Começo do Fim do Mundo” e “Sub” – o Cólera estreou em disco com “Tente mudar o amanhã”. 

                Mesmo sendo uma das formações pioneiras do punk rock paulistano, e brasileiro, o Cólera foi uma das últimas a registrar um disco completo. E olha que não foi por falta de envolvimento com o “movimento” ou de conhecimento das possibilidades do D.I.Y. (Faça você mesmo) que o trio não só viveu como também gritou em sua poesia punk libertária e pacifista.

             O álbum abre com a catastroficamente profética “1.9.9.2.”, ainda sob o medo nuclear, assim como em “Duas ogivas”, sobre a usina de Angra dis Reis. Se volta contra as guerras na antimilitar “Marcha” e à exploração social em “Em você”.

                 Dedica ódio à cidade de São Paulo nas clássicas “São Paulo” e “C.D.M.P.”, sigla que quer dizer “Cidade dos meus pesadelos”, cujos versos esbanjam niilismo punk, “puta merda de lugar” e “sem futuro”, versos presentes nas duas canções respectivamente.

               Grande parte das músicas clama por ação, “Agir” e “Rasgando o ar”. Convida às ruas contra o fascismo em “Passeatas”, contra a miséria, “Sarjeta”, e contra a verticalização da justiça nacional em “Violar suas leis”.

              Musicalmente não há grandes diferenças entre as canções. O baixo às palhetadas em volume alto segue a melodia dos vocais, com refrões cantados em três vozes, que é a melodia que se esconde no efeito serra-elétrica da guitarra. A bateria de Pierre é quase que um esquema que se repete em todas as músicas, sibila pratos de versos cantados em coro, economiza nas viradas, mas parece sempre bastante segura.

Cartaz de show na Holanda, turnê de 1987
           “Tente mudar o amanhã” teve sua primeira edição em vinil lançada pelo selo Ataque Frontal, que até então mantinha parceria do Redson, que nos anos seguintes assumiria a produção de muitos discos lançados pelo selo. As edições seguintes do álbum ficaram por conta do selo Devil Discos, casa de outros tantos discos do trio paulistano após a cisão com a Ataque Frontal.

                O disco teve uma boa repercussão, mas o bicho pegou mesmo foi no segundo LP, “Pela paz em todo mundo”, de 1987, quando as vendas esgotaram tiragens e pavimentou a estrada para a lendária turnê europeia, realizada no mesmo ano.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Kangaroos in Tilt "Alone" (Spider/Thirteen Records, 1996)


            O Kangaroos In Tilt frequentou por um período curto de tempo o séquito das principais bandas de hardcore brasileiras. Antes de registrarem o primeiro disco de uma curta trajetória, haviam participado na clássica coletânea “Fun, milk, destroy!”, que cobriu a cena punk/hc da capital e do interior de SP da primeira metade dos anos 90.

               “Alone” é um trabalho vigoroso, tanto na parte de execução das musicas quantos nos vocais de Kichi. As letras são todas em inglês e o som flerta com um pouco de hardcore nova-iorquino, mas sem deixar de ter uma sonoridade bastante old school, voltada às bandas do harDCore. 

                São 10 músicas em exatos 20 minutos. Tempo suficiente para “Alone” entrar em qualquer lista que relacione os principais discos de hardcore gravados no Brasil. É uma porrada na frente da outra, sem descanso. “No choice” faz a vez de hit do disco, que também tem em “Violent truth” e “Cry for help” outros bons momentos.

                O disco foi lançado pelo desconhecido selo Spider Records e recebeu distribuição da Thirteen Records, selo do André ‘Tor’ Tauil que iniciou sua trajetória da fonografia independente naqueles bons anos do hardcore brasileiro dos anos 90. 

                O Kangaroos in Tilt não durou muito após o lançamento de “Alone”. Se você gosta de hardcore, é obrigação conferir este álbum.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Smack "Ao vivo no Mosh" (Baratos Afins, 1985)


             O Smack surgiu em 1983, do contanto entre Sandra Coutinho e Pamps (1953-2015). Os dois acompanhavam a cantora paulista Eliete Negreiros, Sandra no teclado e Pamps no baixo, quando Pamps mostrou algumas composições e linhas de baixo para Sandra, que já tocava na Mercenárias. Completou a formação o guitarrista Edgard Scandurra, que na época se dividia em pelo menos outras três bandas na capital paulista.

           Assim, o Smack começou a ensaiar com diversos bateristas, até fechar com Thomas Pappon, que também empunhava suas baquetas no Voluntários da Pátria e ensaiava a existência do Fellini. Com a proximidade do lançamento do disco do Voluntários da Pátria, Thomas ameaçou deixar a bateria para se dedicar somente ao Voluntários. Isso fez com que a banda entrasse em estúdio para registar o repertório composto por Pamps antes que a banda entrasse num intervalo.

        O Smack entrou no estúdio Mosh e gravou as 10 canções ao vivo. A ideia inicial era gravar um show, mas a falta de recursos financeiros para bancar uma gravação inviabilizou a oportunidade da banda registrar a aura cult que já rondava o Smack desde o início. Sendo assim, decidem gravar ao vivo no estúdio. 

Bizz, ed. 04, novembro de 1985
         Do Mosh saíram com uma fita demo que foi apresentada ao Luiz Calanca, da Baratos Afins, que aceitou em lançar um produto já acabado. O LP saiu no ano seguinte à gravação. Um disco em 45 rpm que acrescentou mais um item ao catálogo do selo que apresentou a grande maioria dos LPs de bandas independentes do pós-punk paulistano.

         O disco foi super bem recebido e as composições caíram no gosto da mídia especializada, que em SP era formada por muita gente que também se dividia entre bandas pós-punks. Contudo, o disco também caiu na mídia internacional. Na coluna Undeground da revista norte-americana Spin, o Smack foi citado elogiosamente, assim como boa parte da fauna obscura de SP.

         Thomas não saiu da banda, como havia ameaçado, mas Edgard Scandurra sim, e com isso o Smack se tornou um trio e registrou um novo disco antes de encerrar atividades para voltar em ocasiões especiais mais de 15 anos depoisEm 2008 registaram um terceiro disco, um EP, com a formação original.

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