domingo, 30 de novembro de 2014

Colarinhos Caóticos "Meios," (Purnada Y Pranada, 1989)



Bizz, edição 55, fevereiro de 1990
             Depois de uma excelente estreia em "Introdução", disco de 1988, o quarteto de Porto Alegre/RS Colarinhos Caóticos não demorou em preparar um segundo registro, este breve compacto intitulado "Meios,".

             O tempo curto entre o primeiro álbum e este EP de apenas duas músicas já foi suficiente para uma troca de integrantes, uma constante em se tratando do Colarinhos Caóticos. Capitaneado pelo inquieto Egisto Dal Santo (aka Egisto Ophodge) em "Meios," a formação se completa com Beltrão, Pol e KCláudio. A anarquia musical pós punk continua nos arranjos que aceleram sem nenhum aviso e letras que mais parecem saídas de uma viagem alucinógena, contudo, sem o sax inesperado de Álvaro, que aqui já estava fora.


            A arte do disquinho de sete minutos tem total relação com o som. Um trabalho caprichado feito embalado num saco de pão com os impressos feito em silk screen, tudo feito à mão. Graficamente muito inovador e bonito. Entender as letras só é possível acompanhando a música. Foram produzidas mil cópias de "Meios,", todas numeradas.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

V.A. "Tiro Inicial" (Radical Records, 1993)


            Lá na cidade do Rio de Janeiro é costume afirmar que capital paulista é o túmulo do samba. Os paulistanos, por sua vez, já disseram que o rock carioca nasceu morto. Nada disso tem razão. Existe uma boa tradição do samba paulistano e certamente o Rio de Janeiro já deu muitas bandas de rock, muitas já passaram aqui neste blog. Mas, se um dia alguém disser que o Rio de Janeiro é o túmulo do Rap levando em consideração a coletânea "Tiro inicial", saiba que o(a) infeliz tem razão. Oh disco ruim de ouvir. 

         O Geração Futuro abre o Lado A com "Racismo eficaz", uma boa letra que cita situações de racismo tratadas como se isso fosse cotidiano, a letra é do MV Bill, que dividia os vocais com Michel MV. O Poesia Sobre Ruínas até tem uma bia batida em "Menor carente", mas a letra é muito fraquinha. Com O N.A.T. a coisa piora, rimas fracas, refrão horrível e uma batida que mais parece saída de um teclado de churrascaria. As Damas do Rap salvam, não que as letras tenham melhorado, continuam horríveis, mas o ritmo sai das batidas secas de outras bandas para um funk melody/charme bem sacado, "Sonho real" tem a melhor produção dentre os grupos da coletânea.
                Colagens de "Selvagem", "Polícia" e "Proteção" abrem "A diferença é a farda" dos Filhos do Gueto, e tematiza a truculência, violência e corrupção policial. A letra é boa, mas os MCs cantam muito mal. A homenagem a Malcolm X cometida pelo Consciência Urbana enaltece o valor histórico e libertador do líder que buscou o nacionalismo negro na América, mas erra em algo imperdoável, justamente na grafia do nome, que ficou Malcom X. Falta de cuidado. Para fechar com chave de 'oro' todos os grupos da coletânea se reúnem com Gabriel o Pensador em "Filhos do Brasil". Tudo bem que em 1993 o "rapper" carioca mal havia completado a maioridade e estava no começo de carreira, porém se o convite faz jus ao álbum, nada mais justo que a presença de um dos nomes mais insólitos do Rap brasileiro.

               "Tiro inicial" foi lançado pelo selo Radical Records, propriedade do produtor Mayrton Bahia. Quem coordenou a produção foi a entidade Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP). No encarte uma frase busca manter a isenção dos grupos quanto a qualquer interpretação do conteúdo de suas letras. Uma orientação do advogado Nehemias Gueiros Jr. contra o risco de possíveis processos.

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Lobão "A Vida é Doce" (Universo Paralelo, 1999)


              O dia 25 de novembro de 1999 ficaria marcado como o momento da "segunda revolução fonográfica independente nacional" - a primeira aconteceu em 1977 com o disco "Feito em casa", de Antonio Adolfo - data escolhida para o lançamento de "A vida é doce". Ainda não houve uma reavaliação do momento em que Lobão lançou seu 11º disco, mas o esquema que envolveu o lançamento, as estratégias de vendas, a repercussão do álbum, enfim, toda a história do disco vale a antecipação do blog Disco Furado em eleger aquele momento específico como marco na transição de um modus operandi da produção independente brasileira.
  
              Em 1999 Lobão vinha de duas experiências em gravadoras distintas. Lançara "Nostalgia da modernidade", pela Virgin, em 1995, e "Noite", pela Universal, em 1998. Os dois trabalhos foram bem recebidos pela crítica, mas venderam pouco e passaram quase despercebidos pelo público. Pode-se afirmar que os dois trabalhos deram um único hit, a canção "A queda", do disco de 1995. Para quem estava acostumado a emplacar mais de um sucesso por disco lançado, a segunda metade da década de 90 foi de vacas magras.

                Sem gravadora e com disposição para terminar a "trilogia do ostracismo" iniciada com o "Nostalgia da modernidade", Lobão começou o ano de 1999 buscando alternativas para retomar as rédeas da carreira, o que envolveu muito planejamento e estudo. Havia um plano, gravar o melhor disco de sua carreira sem o aparato de uma grande gravadora. E havia uma "logística", criar seu próprio selo, a Universo Paralelo, e comercializar os discos em bancas de jornal. 

                A ideia não era novidade. Ary Toledo vendia CDs de piadas encartadas numa revista e a revista Placar distribuiu CDs com tiragem de 400 mil unidades, por exemplo. Lobão aproveitou o filão e se deu bem. O que se viu depois foi uma sequência de lançamentos encartados em revistas prontos para chegarem às bancas.

               As canções de "A vida é doce" foram testadas em shows acústicos e o trabalho era anunciado em qualquer oportunidade, tanto que depois do lançamento Lobão recrutou uma banda enxuta, apenas baixo e bateria, e caiu na estrada, seja para levar o novo disco para novos lugares, seja para palestrar sozinho sobre produção independente em Universidades e espaços públicos. A metralhadora voltara a funcionar e os alvos eram grandes gravadoras, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), a campanha anti-pirataria, o jabá, Herbert Vianna... Enfim, Lobão tinha o que dizer e ganhou espaço na mídia, exceto nas rádios.

Bizz, edição 174, janeiro de 2000
             Já havia uma expectativa sobre "A vida é doce" e poucos ousaram afirmar que o disco não merecia ser ouvido. Tratava-se do trabalho mais inovador de um músico da geração do rock brasileiro dos anos 80. Havia a presença da música eletrônica, seja nos beats de "Tão menina" ou no Trip Hop, "Universo paralelo" e "A vida é doce", algo que também já estava presente no disco "Noite", o mais eletrônico da discografia do Lobão. As letras carregavam uma urgência e dialogavam com temas pesados, tais como assassinato, em El desdichado II", e desespero, em "Mais uma vez", mas também surgiam românticas e apaixonadas, em "Vou te levar" e "Uma delicada forma de calor", esta em dueto com Zeca Baleiro, uma das melhores do disco. Pouco depois Zeca Baleiro foi cobrado pela sua própria gravadora, a MZA de Marco Mazzola, pela participação indevida. O álbum se encerra com uma bossa nova eletrônica e sombria que atualizava o amanhecer solitário do Rio de Janeiro.  
    
                 A crítica exaltou o álbum, principalmente a revista Bizz que apoiou o projeto desde o seu esboço. Depois do lançamento a revista trouxe de brinde o CD-Rom  "Lobão inédito", com duas canções do álbum recém lançado, "A vida é doce" e "mais uma vez", e making off da gravação.

             Nas entrevistas de lançamento Lobão voltava aos mesmos temas e levantava projetos, como a de numeração de CDs e DVDs, que entrou em vigor em 2003, mas num momento em que as vendas já não representavam tanto para que pudessem ser escondidas, falseadas ou forjadas pelas grandes gravadoras. A lei está em vigor até os dias de hoje.

           As gravações aconteceram de março a setembro de 1999 no estúdio do baterista Jongui, com participação de músicos amigos como Sacha Amback, teclados e programações eletrônicas, e Dé Palmeira, baixo, produzido por Lobão, Jongui e Maurício Barros. Nas entrevistas de divulgação Lobão afirmava que a produção do disco, que contou com vocais gravados dentro de armários, corredores e banheiros, era melhor do que o oferecido por uma grande gravadora. Numa reavaliação posterior Lobão se contradisse ao concluir que o disco carecia de um peso que a mixagem não privilegiou.

           O projeto gráfico incluía o disco como parte da revista "Lobão Manifesto", um encarte de 20 páginas com letras, fotos e poesia concreta. As estrategias de vendas guardam uma curiosidade que ganhou as páginas da biografia do músico, o livro "50 anos à mil". No final de 1999, Lobão retornou ao palco do Domingão do Faustão, depois de 10 anos sem pisar na emissora de Roberto Marinho, e armou de divulgar que seu novo álbum, numerado e vendido em bancas, havia atingido a marca das 50 mil cópias, o que não era verdade. Mas Lobão também prometeu na ocasião que a nova tiragem de mais 50 mil cópias já estaria nas bancas de todo Brasil no dia seguinte, uma verdade. Lobão entrou no novo milênio com um disco de ouro independente e ainda alardeava com orgulho que já havia assinado algumas cópias da versão pirata.

               A experiência valeu para outros artistas, tais como Dr. Sin e Karnak, e para a criação da revista Outracoisa. O projeto de vender CDs em banca não foi completamente abandonado, ainda que tenha arrefecido no final dos 00's. O suficiente para marcar "A vida é doce" na transformação da linha evolutiva das produções independentes.  

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Little Quail and the Mad Birds "Lírou quêiol en de méd bârds" (Banguela, 1994)


              O trio brasiliense Little Quail and the Mad Birds (LQMB) pode não ter conquistado fama durante os nove anos em que esteve em atividade, porém, desde as primeiras demo tapes a banda já dava mostras de que era um dos bons nomes da nova geração do rock brasileiro. Aquela surgida no começo dos 90's em meio a ressaca criativa do rock nacional da década de 80 e os novos ritmos populares que incluíam lambada, dance music, sertanejos e axés principiantes.

               O LQMB chamava a atenção do público e imprensa alternativa, mas suas qualidades aparentemente não poderiam ser suficientes para garantir seu sucesso, afinal, o trio não carregava nenhum "manifesto das codornas", não levantava bandeira para nada e muito menos transitava na busca por incorporar elementos brasileiros ao seu som. Pelo contrário, o som do LQMB pode ser definido no amálgama simples de Rockabilly/Psychobilly+Surf Music+Humor. A maior qualidade do trio era a de não soar derivativo de ninguém, muito menos de suas bandas contemporâneas ou conterrâneas. As características do LQMB eram simples e facilmente reconhecidas, mas também eram únicas.

             Antes de chegar ao primeiro disco o LQMB havia tido uma composição de sucesso. A nonsense "1,2,3,4" entrou na coletânea "A vez do Brasil", junto com outro hit, "Aquela", e ganhou a programação das rádios de muitas capitais. Uma demo tape produzida no ano anterior chegou ao assombroso número de 1200 unidades vendidas e alavancou a banda, ao mesmo tempo que também ajudou a formar um circuito de venda e troca de fitas demo que antecedeu a criação de alguns selos independentes do anos 90, como o Banguela. 

          Os vídeo clipes de "Cigarette", de 1991, seguidos pelos vídeos de "1,2,3,4" e "Família que briga unida permanece unida", entraram na programação da MTV Brasil. O clipe de "Essa menina" chegou à segunda colocação entre os mais pedidos do canal, a canção de amor mais divertida do álbum também ganhou as emissoras de rádio.

                 "Lírou quêiol en de méd bârds" abre com uma reinterpretação da vinheta de abertura do jogo Stock Car e segue rápido por pouco mais de meia hora, o intervalo curto de menos de 1 segundo entre as canções segura o pique do disco que não dá trégua. As canções curtas e rápidas te pegam pelos ouvidos, logo vem "1,2,3,4", acrescida de um coro que contou com membros de 73% das bandas mais legais que haviam na época, e "Berma is a monster" que garantem o chacoalhar das cabeças, movimentos de air guitar ou air drums são sintomas inevitáveis. "Família que briga unida permanece unida", cadencia a velocidade, mas a versão animal de "Samba do Arnesto" retoma o ritmo dos primeiros segundos do álbum.

Revista General, edição 08
                   "Baby now" e "O sol eu não sei" carregam o humor ingênuo e pancadaria do trio, tudo muito simples, não mais que três acordes e letras que não dizem absolutamente nada, o mesmo vale para o ska "Mamma mia". "Cigarette" abre a tríade das melhores do álbum, junto com "Essa menina" e "Azarar na W3", letras espertas e uma energia contagiante. A letra de "Azarar na W3" deu margem para várias interpretações, tais como namorar na internet - uma novidade pouco acessível para aqueles dias - ou "azarar" travestis. Na verdade a letra fala sobre andar de carro e fumar maconha numa das pistas largas de Brasília/DF. "Pump up the bird" é um cartão de encerramento e brinca com a dance music, meio Technotronic e Locomia. Uma faixa escondida no CD traz mais quatro minutos tosquíssimos do LQMB ao vivo.

                 Com este trabalho o trio tocou em tudo quanto era palco que os convidava, abriu show importantes, como Ramones e Toy Dolls. Em 1996, com o Banguela de atividades encerradas, a banda assinou com a estreante perna brasileira da Virgin Records e lançou um segundo disco, "A primeira vez que você me beijou". A Virgin durou pouco e o Little Quail também, depois de uma experiência frustrante na segunda noite do festival Close Up Planet, em dezembro do mesmo ano, na qual o LQMB não tocou, o trio se enfraqueceu e encerrou sua trajetória poucos meses depois.

            "Lírou quêiol en de méd bârds" foi lançado nos formatos CD, LP e K7, contudo a tiragem pequena e a distribuição mal planejada fez com que o disco não circulasse, o que não foi empecilho para que se sua tiragem se esgotasse rapidamente.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

DMN "Cada vez + preto" (Zimbabwe Records, 1993)


            Formado em 1989 em São Paulo/SP o DMN chegou ao primeiro disco quatro anos depois. "Cada vez + preto" traz 12 canções que tratam, em sua absoluta maioria, sobre preconceito racial. As letras carregam uma necessidade de conscientizar o ouvinte sobre os valores dos negros e como a intolerância racial está presente no cotidiano. 

            A abertura do lado A já dá mostras do conteúdo. A vinheta "Introduzindo Chaos 92 memória" tem uma colagem de áudios editados do Jornal Nacional que apresentam situações de racismo e injustiça sofrida pelos negros e seleciona um fato marcante daquele ano, o massacre de 111 presidiários no Carandiru. "Já não me espanto" fala de sociedade e Estado opressor, esta faixa foi produzida junto ao KL Jay.

            Mesmo quando as músicas trazem batidas mais dançantes, com influências dos sons dos bailes blacks de São Paulo, as letras ainda carregam revolta e relatam situações em que negros se veem marginalizados, como em "Como pode estar tudo bem?" e "Mova-se", esta diz sobre resistência e a batida convida ao passo à frente.

             "4p" reclama o  poder para o povo preto, recorre aos nomes de negros importantes nas artes e afirma o orgulho de ser negro. O nome 4p também deu origem ao selo do DMN, que neste disco recebia o complemento Ezcur$$ões T-rrori$taz. A vinheta "Errata-ta-ta" abre o lado B e introduz "Considere-se um verdadeiro preto", canção que trata do tema "costumeiro" de chamar o negro de negão e os apelidos derivativos. afirma a valorização da história dos negros e dever de todos em reconhecer os preconceitos escondidos nos hábitos. "Aformaoriginalmental" retoma os momentos mais dançantes do lado A, com uma seleção de samples e um riff de guitarra que atravessa as letras cujos temas lembram colagens do disco, pois já foram abordadas em outras canções. O álbum se encerra com "F... Inferno 93 saindo", instrumental de batida lenta e pesada, uma cara para o tenebroso ano que também se encerrava.

               "Cada vez + preto" foi lançado pelo selo paulistano Zimbabwe, equipe de som e casa dos primeiros discos de Rap feitos em São Paulo, com distribuição pela Continental/Warner, também disponível em k7 e CD, neste formato acrescido de outras músicas. O DMN levou mais quatro anos para registrar seu segundo disco, mas mesmo com poucos registros o grupo se firmou como um dos principais nomes do Rap nacional da década de 90.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Paralaxe (Independente, 2005)


              O álbum sem título é o primeiro trabalho do duo de Belo Horizonte/MG. Entretanto, aqui a Paralaxe também conta com mais dois músicos. O núcleo da banda é composto por Fredhc (voz e violão) e Rafael Carneiro (efeitos eletrônicos e quase todos os outros instrumentos) que se encontraram na Faculdade de Medicina e desenvolveram texturas musicais eletrônicas que pudessem combinar com música orgânica e as letras carregadas de referências de política, sociologia, quadrinhos e ficção científica.

          A canção que dá titulo ao duo também abre o disco. "Paralaxe" funciona como um convite aos outros 10 temas próprios, resume o restante do disco apresentar efeitos vocais, bom arranjo de guitarra, bateria eletrônica e uma letra futurista. "Dr. Gori vs. Spectreman" recria o cenário da série Spectreman na batalha infinita do herói que dá nome ao seriado com o vilão Dr. Gori, cita Jango e seu algoz, o general Golbery do Couto e Silva, este responsável pelo processo de abertura política, no final da década de 70, e que levou ao fim a Ditadura Militar. Traz um refrão marcante, barulhinhos eletrônicos e um sample da guitarra de "Pinball wizard", do The Who, escondido. Totalmente inserida numa pós-modernidade. 

       "Alumínio" é um das melhores do disco, predominantemente percussiva. "Blurhorizonte" funciona como uma homenagem à cidade do Paralaxe. Em "Infravermelho" o som de uma viola antecipa as batidas falsamente orgânicas e lembra a estrutura musical também usada em "Dr. Gori vs. Spectreman". "Retrato" é um Reggae minimalista que beira o Trip Hop, com flautas à "Glory box" e citação direta à "Purple Haze", de Portishead e Hendrix respectivamente. "Clubber do milharal" poderia até caracterizar à Paralaxe, e isso não é pejorativo. Também há canções de (des)amor, algumas quase baladas, como "Acho q passei do tempo", "Indecisa" e "Santo Antonio". "Misantropp" também tira lascas do coração, mas surge melhor resolvida, muito por conta do arranjo que cadencia Trip Hop no refrão e rasga um solo de guitarra em meio às melodias de blips e blops.

              O disco foi lançado de forma independente e caseira, não há dados de fabricante, muito menos fotos ou ilustrações. A capa simples segue o padrão gráfico também usado na apresentação das letras e ficha técnica. Ao vivo a Paralaxe contava também com projeções de vídeo do VJ Ímpar que cabem muito bem à proposta do duo. 


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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Magnéticoss "La kukaratcha wave music" (Excelente Discos, 1996)


              O trio formado pelo herói do underground na capital paranaense JR Ferreira (baixo e voz), somado a Kako Louis (bateria e posteriormente vocalista da Relespública) e Marcus "Coelho" Gusso (guitarra e homem de muitas bandas, tais como Jully et Joe - também com JR - Aaaaaa Malencarada, Skijktl e outras), chegou ao seu primeiro disco através do selo Excelente, formado por Carlos Eduardo Miranda após a dissolução do selo Banguela.


Revista Vírus, Edição 04, 1997
O disco poderia frequentar o catálogo do antigo selo de Miranda, pois carrega uma proposta totalmente nonsense, de letras estapafúrdias distribuídas entre três idiomas, sendo que a grande maioria está num portuñol de péssima qualidade, não fosse a intenção da banda em divertir o ouvinte.

               O resultado é bastante razoável e pode ser a causa de o álbum ter passado quase despercebido. Letras que não dizem nada, "Los panços, "Eu sei" e "Istambul ou Paraguay?" se perdem em meio a piadas que não têm graça. Por sinal "Istambul ou Paraguay?" tem a mesma melodia de "Tell me true" do Intruders, outra banda de JR na época. O que sobra são as músicas, um pouco melhores, com pegadas punk, pós-punk, ska, new wave e surf music, deveriam funcionar bem ao vivo, principalmente com umas cachaças a mais.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

V.A. "Torquato Neto - Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia" (Independente, 1985)



              Na madrugada do dia 10 de novembro de 1972 Torquato Neto retornou ao seu apartamento depois de comemorar seu vigésimo oitavo aniversário. Havia passado pouco das três da madrugada, Torquato vedou as saídas de ar do banheiro e abriu o gás para a eternidade. Deixou 44 letras de músicas, quatro filmes, sendo um como diretor, vários poemas e mais uma porção de textos, correspondências e manuscritos perdidos. Muitos incompletos. 

             Torquato Neto teve participação da cultura brasileira na década de 70, surgiu ao grande público junto aos baianos no álbum coletivo "Tropicália ou Panis et Circencis", de 1968, como letrista de "Mamãe Coragem", parceira com Caetano Veloso e na voz de Gal Costa, e "Geleia geral", composta ao lado de Gilberto Gil e defendida por este. Por sinal, Geleia Geral também foi o nome da coluna que Torquato manteve por sete meses no jornal Última Hora, entre 1971 e 1972. Durante os anos 70, e com família formada no Rio de Janeiro, Torquato contribuiu com a formação das publicações independentes Presença e Navilouca, esta vinculada à geração do desbunde que transitava entre a vanguarda literária brasileira e as novas referências da literatura beat. A Navilouca ganhou apenas uma edição, póstuma.

            Era inquieto, mexeu com música sem saber tocar ou cantar. Também quis o cinema, as artes plásticas, o jornalismo. Tornou-se exilado e retornou distante dos velhos amigos, igualmente exilados. Frequentou hospícios. A vontade de realizar tudo num curto espaço de tempo não permitiu a sistematização de sua produção, tanto que enquanto vivo não conseguiu ver sua obra reunida.


             
              O trabalho de redescoberta da obra de Torquato Neto tangencia a capa vista logo acima. Trata-se do primeiro disco que reuniu composições de Torquato gravadas por conhecidos intérpretes da MPB. O Lado A abre com "Louvação", parceria com Gilberto Gil e que também empresta título ao primeiro disco de Gil, aqui num sambalanço de interpretação repartida entre Elis Regina & Jair Rodrigues. Elis ressurge em "Pra dizer adeus", composição de Torquato e Eu Lobo, triste, chorosa, um lamento de quem quer o seu amor de volta. Gilberto Gil também dá voz a "A rua", um conto que carrega na memória a infância de Torquato e uma imagem do Rio Parnaíba, em Teresina/PI. "Marginália II", também com Gil, o maior frequente intérprete de Torquato, surge bucólica se comparada à desconstrução ufanista de "Geleia geral", um clássico da pós modernidade na MPB.

            "Zabelê", conhecida do disco "Domingo" de Caetano e Gal, é totalmente baiana, preguiçosa, na linha Caymmi. "Ai de mim Copacabana", com Caetano, é cosmopolita, uma marchinha carnavalesca e de humor circense. Em "Três da madrugada", Gal e seu melhor acompanhamento, o violão, desaguam a melancolia desesperadora que volta e meia pode te arrebatar às 3:00. Em "Mamãe coragem" a voz de Gal narra uma carta de despedida entre o autor e sua família. Em "Deus vos salve a casa santa" há o reencontro familiar, saudoso e terno. Perto do fim do Lado B entra "Let's play that", um assombro do desbunde presente no primeiro disco de Jards Macalé e que se tornou uma de suas principais canções, um trio afiado e um grito destapado: Vai bicho. Desafinar o coro dos contentes!

               "Torquato Neto: Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia" foi produzido em parceria entre a Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí e a RioArte, do Rio de Janeiro/RJ. O LP teve uma tiragem pequena de 2 mil cópias e distribuição gratuita. O trabalho gráfico é caprichadíssimo com textos exclusivos de Tárik de Souza e Gilberto Gil, alem de fotos, letras, ficha técnica. A única exceção feita ao projeto gráfico fica por conta da escolha da imagem da capa, que traz uma foto desfocada de Torquato Neto, autoria do fotógrafo Maurício Cirne. Entretanto, Torquato não deixou muitas fotos, outras estão distribuídas nas oito páginas do encarte. A obra musical de Torquato Neto foi ampliada com o lançamento do CD "Todo dia é dia D" (Dubas, 2002) que traz um novo compilado das letras de Torquato com outros interpretes.

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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

D.Fhala "Top hits" (Cogumelo Recorrds, 1995)


                Em 1995 o DeFalla passava por uma redefinição difícil na montanha russa que era trajetória da banda até então. Edu K havia pulado do barco em nome dos novos rumos de uma carreira solo e de produtor. Restou à Castor e Flu reconstruir a banda com a entrada de uma nova baterista, Paula Nozari, e um vocalista, Tonho Crocco, que também assumia o microfone do Ultramen. Para destoar um pouco mais a banda dotou uma nova grafia, agora D.Fhala.

Bizz, edição 136, julho de 1996
                O resultado da busca por manter a banda em atividade foi o sexto disco completo do DeFalla/D.Fhala, ou o único álbum do D.Fhala. "Top hits" cabe bem ao que o título induz, aqui temos uma reunião de hits que nunca tocaram no rádio e uma cara pop que a banda não havia mostrado em fases anteriores, com espaço para pequenas imprevisibilidades habituais.

              "Top hits" abre com "Flashback", uma narrativa sobre um certo ácido estragado que fez a cabeça do Tonho Crocco só no dia seguinte. "You" é pop até a medula, beira ao bubblegum pop da Beatlemania, por sinal o disco traz uma versão deturpada para "Help". A mesma deturpação vale para o hit, este de verdade, "Linha do horizonte", do Azymuth, agora vertido num funk melody. "Let me be" é outra pérola modelo beatle, autoria de Castor.
  
               "Tell me" e "Beatriz" flertam com o funkmetal. O hardcore "Os ovo da galinha", surge como uma das melhores do disco, ao lado do space pop "Sing it loud", esta ganhou videoclipe exibido raríssimas vezes. Outros bons momentos estão em "Momento singular" e "69 st", esta com destaque para a guitarra de Fornazzier.

            "Top hits" foi o derradeiro disco do D.Fhala pelo selo mineiro Cogumelo. Depois do álbum o D.Fhala entrou em recesso e voltou no final da década de 90 com a velha grafia, seu principal vocalista e - enfim! - seu grande hit mundial.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pé do Lixo (Lona Records, 1998)


             O Pé do Lixo surgiu em Vitória/ES em 1995, participou de vários festivais pelo Brasil e de coletâneas em CD. Este EP é seu primeiro registro em disco, um álbum curto com seis canções divididas em menos de 15 minutos.

                O trabalho da banda parece o resultado de projetos sociais com música. As letras tratam de temáticas caras às décadas seguintes, como preservação ambiental, reciclagem e valorização de culturas maginais. Tudo isso misturado ao rock. O som é pesado e carregado de groove, muito por conta dos trabalhos de percussão executados com latões, placas de zinco e outros instrumentos percussivos feitos à partir material reciclável. As guitarras trazem riff distorcidos e trazem bons resultados à canções curtas, tais como "América sob o sol" e "Cultura de rua". "Terra prometida" é o quase hit do Pé do Lixo, a única do EP que flerta com o reggae.

           O álbum sem título foi lançado pelo selo local Lona Records, e teve uma boa repercussão, o suficiente para gerar premiações ao Pé do Lixo. O projeto gráfico é simples, mas bastante completo, com ficha técnica, fotos e letras.

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Diesel (Independente, 2000)


               No final da década de 90 uma banda de rock despontava de Belo Horizonte/MG como uma promessa brasileira para o mercado internacional da música. Pensando na origem do quarteto, e conhecendo um pouco das bandas de rock daquela região, qualquer um poderia se precipitar em afirmar que BHz deu mais uma banda de Death/Thrash/Black Metal, mas não, o Diesel está distante da água pesada que alimentou tantos nomes do rock mineiro. Aqui o som tá mais próximo do rock norte-americano produzido durante os 90's, ecos de bandas grunges estão por toda parte, das boas letras à riffs e efeitos de guitarras.

             O único registro do Diesel foi lançado de forma independente e veio encartado à um poster vendido em bancas de jornal ao valor de R$9,90. Vendeu bem, algo próximo das 5 mil unidades. O álbum abre com "Drain", canção que vai num crescendo que explode num belo refrão, quando chega ao final você está cantando junto. E não é assim que se medem as canções pop? "Plastic smile" lembra muito as bandas norte-americanas que despontaram comercialmente após a bala que atravessou a cabeça do Kurt Cobain, meio Stone Temple Pilots e com um bom trabalho de guitarras, de Leo Marques e Gustavo Drummond, que também dá conta do microfone.

               Por mais que seja um disco de rock, carregado de distorções, tons graves, com baixo aquele baixo "gordo" e bateria que leva porrada pra valer, é inegável o teor pop do Diesel. "Burn my hand" poderia se um hit fácil. "Kill the inner loser" é quase como uma fórmula pop, com refrão em falsete e tudo. O mesmo vale para "My pain", as músicas mudam, mas não muito. "4D" ganhou vídeo clipe e é um dos pontos altos do álbum.

Bizz, edição 117, abril de 2000
            Com este trabalho o Diesel conquistou a premiação mais importante que uma banda independente nacional poderia alcançar naquele começo de milênio. No concurso Escalada do Rock não teve pra ninguém e o Diesel foi a banda selecionada para tocar no palco principal do Rock In Rio III, que seria realizado em janeiro de 2001. E assim foi, no dia 21 de janeiro o Diesel abriu atividade na Cidade do Rock, criada em Jacarepaguá-RJ, numa noite que ainda traria O Surto (bleargh!!!) Deftones, Silverchair, Red Hot chili Peppers, dentre outros. O show do Diesel foi interrompido pouco depois dos seus 20 minutos por conta de tumultos na entrada do evento, mas pode ser conferido aqui: Diesel Rock in Rio III (parte 1), Diesel Rock in Rio III (Parte 2).

          Logo após o festival o quarteto realizou outro plano iniciado antes mesmo do lançamento do disco, a busca definitiva do mercado norte-americano, uma vocação imanente à existência do Diesel. A transferência BH-NY não foi suficiente para que o Diesel despontasse. Pior. O quarteto sucumbiu à tentativa voltou com um novo nome, Udora, desmembrado, o baterista Jean assumiu a vaga deixada por Iggor Cavalera no Sepultura, e  com uma temática diferente, distante do rock super americano deste excelente disco. 

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