sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Rebeca Matta "Tantas coisas" (Independente, 1998)


             Rebeca é uma cantora de MPB. Também é baiana, como outras tantas. Mas Rebeca foge do lugar comum das cantoras da MPB e principalmente das baianas. Isso porque sua forma de fazer música popular também está distante da doçura dos banquinhos, barquinhos, violões e jangadas. Rebeca é mais cosmopolita e assim trafega com liberdade pela MPB urbana, pode até buscar um repertório visitado frequentemente por outras vozes, mas não o faz de maneira convencional.

                   O álbum abre com "O mar", canção do grupo português Madredeus, aqui bastante etérea, construídas entre distorções e barulhos de água. A parte etérea é uma característica bastante presente no disco, como na versão para "O meu amor", de Chico Buarque e sucesso na voz de Maria Bethânia, que inclui uma introdução incidental à "Insensatez", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, uma das melhores do disco. "Nada será como antes", retirada do indiscutível clássico da MPB, o disco "Clube da esquina", de Milton Nascimento e Lô Borges, ganhou uma interpretação pesada, industrial diria. O repertório de Tom Zé é visitado em "O amor é velho - menina", uma camerata operística que abre espaço para arranjo de violão bem latino. A canção que dá título ao álbum, uma das autorias de Rebeca, funciona como manifesto feminista que carrega um grito contido aguardando explosão distribuída entre ruídos de guitarra. Outros momentos são as trocas da MPB com o Trip Hop, em "De qualquer jeito" e "O Anjo", e o bom uso de silêncios em "Barracão", outra canção cara à MPB.

                      "Tantas coisas" foi produzido por André t., produtor de boa parte das bandas de Salvador/BA no final dos 90's e entrada do novo milênio, e lançado de forma independente, mas conseguiu sair do seu local de origem. Com este Rebeca Matta foi eleita revelação do ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). O projeto gráfico, essencialmente em preto e branco, traz todas as letras, extensa ficha técnica e muitas fotos.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Wander Wildner "Paraquedas do coração" (Fora da Lei, 2004)


                    O quarto álbum de estúdio do Wander Wildner é também seu primeiro disco que leva o nome da banda que o acompanha, os Comancheros, uma formação mutante, mas que aqui atendia pelos nomes de Tom Capone, João Vicenti, Mauro Manzoli e Glauco Fernandes & Quarteto de Cordas. Um disco essencialmente acústico,mas que carrega aquelas peculiaridades já conhecidas dos trabalhos anteriores, canções de amor e pé na estrada, espanhol forjado nos pampas e pequenos espaços para guitarras, para não esquecer que por trás deste violão de 12 cordas, que ilustra a capa, há um coração punk.

       O disco abre com a já conhecida "Rodando el mundo", de "Buenos dias", aqui numa versão estendida com direito à citação de "Machu Pichu", do Hermes Aquino. "A última canção" segue no estilo de baladas de amor e abandono que alçaram Wander à condição de expoente do estilo punk-romântico-brega. "Candy", sucesso dos anos 80 de Iggy Pop, ganha uma boa versão, com violinos e sotaque carregado. "Eu acredito em milagres" nada mais é que "I Believe in miracles" do Ramones vertida para português, esta deveria figurar no tributo brasileiro ao Ramones, que nunca saiu, mas pode ser encontrado para download sob o nome de "Você se lembra do rock'n'roll que tocava no rádio?". "Ganas de vivir" encerra o disco, numa versão diferente da que também encerra o disco 'Baladas sangrentas"

                "Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro" é o hit do disco e caiu nas graças da MTV Brasil, que também exibiu com frequência o clipe para  nova versão de "hippie´Punk-Rajneesh", clássico do primeiro álbum gravado por Wander Wildner, "O futuro é vórtex", com Os Replicantes. Por sinal, Wander já tentara algumas vezes furar o bloqueio da MTV, mas seus clipes teimavam em não frequentar a programação, alguns sequer foram exibidos. Com este disco o gaúcho foi indicado à maior premiação da emissora, o VMB Brasil, e em seguida convidado para estrelar o cast de artistas selecionados para o programa e disco "Acústico MTV Bandas Gaúchas", lançado no ano seguinte.

                  "Paraquedas do coração" foi lançado pelo próprio selo de Wander Wildner, o Fora da Lei, ainda que em nenhum momento o disco informe o nome do selo. A produção ficou a cargo de Tom Capone, parceiro e incentivador da carreira solo do Wander desde o primeiro disco, "Baladas sangrentas", do qual também assinalara a produção. Este disco foi uma das últimas produções de Tom Capone, que falecera pouco depois de seu lançamento. O projeto gráfico é de Diego Medina, o "multi-homem" por trás do lendário Doiseu Mimdoisema, além de Vídeo Hits, Jesus Buceta e outros projetos musicais inomináveis. A tiragem pequena de 2 mil cópias fez com que "Paraquedas do coração"  logo sumisse do catálogo, boa parte consumida nos shows do Wander Wildner.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tek Noir "Alternative" (Stiletto, 1990)



               Tek Noir é o nome da dupla formada por Marcelo Donolo e Filipo, aqui conhecidos como Mark Rhiley e Phillip Ashley, respectivamente, e "Alternative" é seu primeiro, de dois, álbuns. A dupla formada em 1988 foi, e é até hoje, a maior investida em se fazer tecnopop, ou synth pop, no Brasil. Tal título pode até ser questionado, mas o caráter pop radiofônico deste álbum é insuperável no gênero, não é para menos que um trabalho desvinculado das grandes gravadoras e até então quase ultrapassado e vinculado aos apreciadores do estilo, tenha se tornado um bom vendedor do selo Stiletto. Uma representação inglesa que botou no mercado nacional de fim dos anos 80 discos absolutamente fantásticos do Joy Division, The Fall, Durutti Colomn... e teve poucas investidas em grupos brasileiros, como no terceiro disco do Harry, além das estreias do Pin ups e Tek Noir.

            "Alternative" traz músicas longas, boa parte com mais de cinco minutos, mas que são características do tecnopop . O ouvinte pode ser enganado muitas vezes e pensar que se trata de um disco de um disco do Pet Shop Boys. Aqui tudo é feito para conquistar o mercado internacional, desde os nomes dos integrantes, um brasileiro, outro argentino, até a produção, dividida entre Mark Brydon, que assinara trabalhos importantes do Yazz e Cabaret Voltaire, e Dino Vicente, cuja experiência com sintetizadores incluía trabalhos com Rita Lee, Joelho de Porco e Som Nosso de Cada Dia.

           O lado A abre com um hit de rádio, principalmente das programações especializadas em música eletrônica, "Beat the rhythm" traz uma batida eletrônica acrecida de vocais robóticos, ecos, backing vocals e sussurros, um excelente cartão de visitas ao tecnopop brasileiro para exportação.  "Drawing of sorrow" é outro hit, dançante, podia ser a nova do Bomb the Bass, refrão grudento e efeitos de synth simulando um cravo em volume alto, muito pop. Em "Talk of desire" os teclados fazendo ambientação sobre efeitos eletrônicos de blips blops, vocais femininos que garantem a melodia e o som de um triângulo marca, tal qual um mentrônomo, toda a extensão da música. Em "One way or another" sobra um pouco de sotaque, mas isso é só uma chatice para quem quer provar que o Tek Noir realmente foi formado no Brasil. O lado B traz a soturna, robótica, e boa "In the name of father" e "Hemispheres divide", bem pop, mais suave, talvez a "balada" do disco, com um potencial de hit não aproveitado.
"O Marc e o Philip tinham todas as composições prontas e eu fiz a pré produção no meu estúdio antes de irmos pro estúdio Mosh. re-sequenciamos todas as tracks e adicionei os meus synths analógicos para deixar o som mais pesado.Lembro de ter usado bastante o Mini Moog e o Pro One SCI. O Mark Brydon chegou na segunda fase do projeto, e adicionou uns samplers. Sem deixar de anotar que a boa vontade do Oswaldo Malagutti Jr, dono do Mosh, tornaram esse projeto possível" 
                                                           Dino Vicente (co-produtor de "Alternative")
Bizz, edição 61, agosto de 1990
              Por mais que não tenhamos números, é possível afirmar que "Alternative" teve um boa vendagem, afinal é fácil encontrar algum exemplar dando sopa despercebido nos sebos. O disco teve boa repercussão, com exceção à resenha destruidora que André Forastieri escreveu para a Bizz, e chegou às rádios de várias partes do Brasil. Mas o "sucesso" não foi suficiente para deslanchar a carreira internacional do Tek Noir, que antes de debutar em disco chamava atenção do público com a abertura dos shows da primeira turnê brasileira do Information Society, e nem o suficiente para segurar o selo Stiletto em atividade. A falta de uma estrutura fez com que o selo fechasse as portas com pouco mais de dois anos de existência, deixando um belo cadáver de discos que possivelmente nunca teriam uma edição brasileira - afinal, qual gravadora estaria interessada num disco do Felt? Obrigado Stiletto! 

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sábado, 11 de outubro de 2014

V.A. "Essence - Tribute to New Order" (The The Records, 1997)


              Depois do álbum "Republic", de 1993, o New Order entrou num jejum discográfico que só foi quebrado no começo do novo milênio com o álbum "Get ready". Neste tempo de oito anos o quarteto de Manchester recebeu seu primeiro disco em tributo. Curiosamente um disco em que apenas nomes da música eletrônica brasileira versionavam à sua maneira alguns clássicos de uma das principais bandas dos anos 80.

               As bandas escolhidas não são nomes fáceis de se encontrar, com exceção do Harry, Tétine e Símbolo, a maioria surge quase como desconhecidos. Naquela época o cenário da música eletrônica, e suas ramificações, vivia um bom momento. Algumas experiências anteriores de selos e projetos já haviam colocado a música eletrônica como parte da produção underground, contudo, o melhor momento do estilo no Brasil viria nos anos seguintes, com a popularização de DJs e casas de shows voltadas à música eletrônica.

               "Essence" traz 15 canções do NO revisitadas, algumas guardam características com as originais, outras surpreendem pela alteração. Exemplos deste temos com o Morgue com uma versão industrial par "Thieves like us" e o Individual Industry que tirou toda a melodia de "Bizarre love triangle" e a transformou numa massa eletrônica densa. "Fine time" ficou mais agressiva com o Biopsy. O curitibano Paulo de Tarso, sob o pseudônimo Clone DT emenda duas da coletânea "Substance", "Ceremony" e Tempation", ambientações de fundo com um vocal tímido e desafinado, na linha Barney Summer. O Nude tomou um dos grandes hits do NO, "Perfect kiss", e sem o baixo orgânico de Peter Hook e canção perde emoção.

               Até o lançamento do tributo o último hit do NO fora a canção "Regret", a escolhida pelo Toward the Cathedral, por sinal a que mais se assemelha ao original, com exceção do vocal narrado e sem melodia no refrão. Um dos principais nomes da música eletrônica nacional - ou seria uma banda de rock que faz música eletrônica? - o Harry, aqui reduzido apenas ao guitarrista Hansen, com o auxílio de Paulo Eduardo na programação eletrônica, e realocado em Fortaleza/CE, lembra o velho Harry, pesado e soturno em "Doubts even here", canção igualmente soturna do primeiro álbum NO, a produção deixou os vocais soterrados em distorção e reverb. O Resonate escolheu "Your silent face" e não deturpou a beleza original da canção. Um ou Não com o vocal doce de Paula Martins, acompanhada da outra metade do Tétine, Bruno Verner, injetam melodia até então desconhecida em "We all stand". 'Confusion" teve um versão house cometida pelo Oil Filter.

               "True faith" surge pesada e bela nas mãos do Aghast View, mantiveram o synth e as melodias, adicionaram densidade e personalidade a uma das mais lindas canções do NO. O Símbolo mostrou que era um dos melhores nomes no cenário independente da EBM (Eletronic Body Music) e mostrou uma boa produção para "State of nation". Tétine entra nas melhores versões do álbum com a cabaré "Truth". Etern também chegam perto do original para "Touched by the hand of god", com synth e teclados. Do disco "Republic" o Night Shitf retirou "Vanishing point" e encerra bem o disco, ao estilo NO - num primeiro momento pensei que se tratava do Vanishing Point, projeto de Roni Baker, que ganhou um bom disco lançado pela Cri du Chat, em 1995.

                  "Essence" foi lançado numa parceria dos selos paulistanos The The Records e Cri du Chat Disques, este o empreendimento mais importante da música eletrônica brasileira na virada dos ano 80 e 90. O disco teve distribuição nacional pela Eldorado, chegou ao mercado internacional através de outros distribuidores. O projeto gráfico é bem resolvido e traz ficha técnica das gravações e contatos. O tributo não é a melhor porta de entrada para conhecer o quarteto de Manchester, mas é um excelente cartão de visita para ouvir projetos de EBM e Synth Pop raros no Brasil.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Missionários "The Invasion of the BLIND Bloody Snatchers" (Bloody, 1993)



              O quarteto Missionários surgiu na capital paranaense em 1986 com a proposta de fazer psychobilly. A formação passou por mudanças ate chegar ao seu primeiro e único registro em disco próprio, antes a banda havia lançado duas demotapes e participado da coletânea "Vampiros de Curitiba". Posteriormente, e com um som distante do psychobilly, participaram da coletânea "Borboleta 13", também com bandas curitibanas. Histórias dão conta de que os membros do Missionários, ora quarteto, ora quinteto, se flagelavam no palco, o que ajudou a criar lendas em torno das apresentações da banda, certamente uma das mais influentes para a formação de uma cena psychobilly no Brasil.

               "The invasion of the BLIND body snatchers" é um compacto com seis canções com letras dividas entre inglês, português e alemão. "The invasion" é um punk'a'billy com vocais cavernosos de Alexandre que aproxima o som do Missionários da mistura entre o gótico e o psycho, conhecida como gothabilly. "King" é punk rock, rápida e de poucas notas, a letra se resume à frase "king your nerves goodbye". "The best way" traz letra composta pelo poeta curitibano Marcos Prado (1961-1996). "O ataque dos sorvetes" e "Sem pé nem cabeça" são as únicas com letras em português, rápidas, quase punk, ou como o quarteto mesmo se define 'Psycho Junkabilly Alcoholic'. A maioria das canções estão também na demotape "Muito barulho por nada ?!!!", de 1992.

           O compacto foi lançado pelo selo Bloody Records num pacote com outras 12 bandas curitibanas. Com este trabalho o Missionários tocou em todos os bares de Curitiba e com bandas importantes do cenário independente da época. O projeto gráfico traz um encarte xerocado de oito páginas, incluindo colagens e ilustrações para as letras.

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V.A. "Omnisciens - Tributo ao Dorsal Atlântica" (Rock Shop Records, 1996)


                Em 1996 o trio carioca Dorsal Atlântica tinha 13 anos de formação e cinco discos. Estava prestes a lançar "Straight" quando saiu este tributo. Aqui 13 bandas do metal nacional homenageiam uma das mais influentes formações do metal brasileiro.

         As versões não fogem muito dos originais e até os vocais remetem ao vocal característico do Carlos Vândalo" Lopes. O Headhunter DC abre o tributo com o death metal "Álcool", canção do primeiro disco completo do Dorsal, o clássico "Antes do fim". O Avalon escolheu "Princesa do prazer", do split "Ultimatum", dividido com a banda carioca Metalmorphose, um heavy rápido carregado de partes hardcore, uma das músicas mais regravadas do Dorsal. 

                 Algumas gravações tem qualidade de fita demo, como a versão de "Thy kingdom come", feita pelo Tumulto. Os pouco conhecidos Jack Daniel's Incorporation, de Manaus/AM, aceleram "Vitória", do "Dividir e conquistar", a ponto do vocal quase não conseguir acompanhar a velocidade do thrash metal. A versão mais distante do original é a feita pelos cariocas do The Outsiders, que traduziram "Gathered prisioners", do "Searching for the light", para "Presos comuns amontoados como animais" e a transformaram numa canção punk. O No Return fez de "Raise the dead" um hardcore novaiorquino. O Insanity resgata o hardcore para "Violência é real".

         Decomposed God faz jus ao nome da banda e descarrega um vocal em decomposição para 'fighting in gangs", canção da primeira ópera metal gravada no disco "Searching for the light". Os cariocas do Endoparasites trazem sua interpretação para mais um clássico do disco "Antes do fim", "Caçador da noite" surge numa versão fiel à original, beirando o hardcore, Os vocais e o solo de guitarra foram gravados pelo próprio homenageado, o mentor Carlos Lopes. O paulistano Genocídio também se volta ao primeiro disco do Dorsal e pinça a também conhecida "Joseph Mengele". De Brasília/DF, o Restless manda um recado do tipo Carlos Lopes em abertura de show do Dorsal, depois emendam uma versão heavy para "Guerrilha". 

              "Omnisciens" foi produzido de forma independente em Fortaleza/CE, talvez por esta razão tenha tantas bandas das regiões Norte e Nordeste. O que valoriza a homenagem, afinal, algumas cidades destas regiões puderam ver o Dorsal Atlântica em atividade. O trio carioca fez turnês por cidades do interior que até então nunca tinham visto um show de rock, ou no caso, metal. A arte do tributo é caprichada, com capa e encarte feitos pelo Juma (Genocídio) e ficha técnica detalhada das gravações, Carlos Lopes também escreveu comentários curtos sobre cada música. O disco foi distribuído pela loja cearense Rock Shop.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Mopho (Baratos Afins, 2000)



                   O quarteto de Arapiraca/AL surgiu para o público brasileiro em 1999, contudo já eram figurinhas fáceis nas noites de Maceió. Foi com a vinda para São Paulo/SP que o Mopho conquistou maior exposição e conseguiu chegar ao primeiro disco.

               O que mais chamava a atenção para a banda neste primeiro disco são suas referências. Ecos do rock psicodélico reverberavam no órgão de Leonardo, os riffs da guitarra de João Paulo remetiam ao hard rock/heavy dos anos 70, os vocais lembravam momentos pesados do rock brasileiro e era comum que todos os textos que apresentavam o Mopho também citassem Mutantes, Som Nosso de Cada Dia e bandas da psicodelia nordestina.

             O álbum sem título abre com a excelente "Nada vai mudar", canção que arrebatava qualquer ouvinte e sintetizava bem o conteúdo do disco, pop e bem construída, letra melancólica, mas nem por isso triste, se encerra com uma citação à "Panis et circensis". A sequência com "Geladeira" abre outro leque de referências, desta vez sessentistas inglesa e seu braço nacional desenvolvido na Jovem Guarda.


Bizz, edição 176, março de 2000
             Em "Não mande flores" há uma bela letra sobre (des)amor e um arranjo caprichado. Entretanto, este cometeu um detalhe que prejudicou a beleza da canção, uma citação incidental à "Kashmir", do Led Zeppelin, no meio do solo. A falta de créditos trouxe questionamentos sobre a homenagem do Mopho a uma de suas grandes influências. "Ela me deu um beijo" surge como um tombo progressivo-psicodélico, momento hard que te leva às imagens raras do Festival Banana Progressiva, de 1975, o mesmo vale para as também boas "Mosca sobre a cabeça" e "Uma leitura mineral incrível" - os títulos já mostram para o que vieram. Esta última surge novamente em versão acústica no bônus escondido no final da última faixa, "Vamos curtir um barato (meu bem)".

              A vinda do Mopho para a capital paulista tinha uma razão, a assinatura de um contrato para o lançamento do disco. Tal contrato não aconteceu, mas uma visita à loja Baratos Afins levou o quarteto aos ouvidos de Luiz Calanca. O contato deu certo e hoje é difícil não relacionar o primeiro disco do Mopho com uma das principais gravadoras independentes do Brasil. O disco foi gravado num estúdio de Maceió/AL com poucas 100 horas entre gravação e mixagem.

             Em São Paulo receberam elogios do maestro Rogério Duprat (1932-2006)) e do guitarrista Lanny Gordin, este chegou a participar de apresentações do Mopho, numa época em que Lanny ainda amargurava o fim de um ostracismo de mais de dez anos. Um dos encontros entre os alagoanos e o guitarrista dos melhores discos dos tropicalistas aconteceu no palco do programa Turma da Cultura, exibido pela TV Cultura. Na ocasião a guitarra verde de Lanny, um dos poucos instrumentos que lhe sobrara, casou bem com o rock psicodélico do Mopho.

              O álbum foi saudado como um dos melhores lançamentos de 2000, e botou o Mopho no mapa das tão raras bandas psicodélicas brasileiras. Em 2013 foi relançado em vinil, numa tiragem limitada e com projeto gráfico caprichado.

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