segunda-feira, 10 de novembro de 2014

V.A. "Torquato Neto - Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia" (Independente, 1985)



              Na madrugada do dia 10 de novembro de 1972 Torquato Neto retornou ao seu apartamento depois de comemorar seu vigésimo oitavo aniversário. Havia passado pouco das três da madrugada, Torquato vedou as saídas de ar do banheiro e abriu o gás para a eternidade. Deixou 44 letras de músicas, quatro filmes, sendo um como diretor, vários poemas e mais uma porção de textos, correspondências e manuscritos perdidos. Muitos incompletos. 

             Torquato Neto teve participação da cultura brasileira na década de 70, surgiu ao grande público junto aos baianos no álbum coletivo "Tropicália ou Panis et Circencis", de 1968, como letrista de "Mamãe Coragem", parceira com Caetano Veloso e na voz de Gal Costa, e "Geleia geral", composta ao lado de Gilberto Gil e defendida por este. Por sinal, Geleia Geral também foi o nome da coluna que Torquato manteve por sete meses no jornal Última Hora, entre 1971 e 1972. Durante os anos 70, e com família formada no Rio de Janeiro, Torquato contribuiu com a formação das publicações independentes Presença e Navilouca, esta vinculada à geração do desbunde que transitava entre a vanguarda literária brasileira e as novas referências da literatura beat. A Navilouca ganhou apenas uma edição, póstuma.

            Era inquieto, mexeu com música sem saber tocar ou cantar. Também quis o cinema, as artes plásticas, o jornalismo. Tornou-se exilado e retornou distante dos velhos amigos, igualmente exilados. Frequentou hospícios. A vontade de realizar tudo num curto espaço de tempo não permitiu a sistematização de sua produção, tanto que enquanto vivo não conseguiu ver sua obra reunida.


             
              O trabalho de redescoberta da obra de Torquato Neto tangencia a capa vista logo acima. Trata-se do primeiro disco que reuniu composições de Torquato gravadas por conhecidos intérpretes da MPB. O Lado A abre com "Louvação", parceria com Gilberto Gil e que também empresta título ao primeiro disco de Gil, aqui num sambalanço de interpretação repartida entre Elis Regina & Jair Rodrigues. Elis ressurge em "Pra dizer adeus", composição de Torquato e Eu Lobo, triste, chorosa, um lamento de quem quer o seu amor de volta. Gilberto Gil também dá voz a "A rua", um conto que carrega na memória a infância de Torquato e uma imagem do Rio Parnaíba, em Teresina/PI. "Marginália II", também com Gil, o maior frequente intérprete de Torquato, surge bucólica se comparada à desconstrução ufanista de "Geleia geral", um clássico da pós modernidade na MPB.

            "Zabelê", conhecida do disco "Domingo" de Caetano e Gal, é totalmente baiana, preguiçosa, na linha Caymmi. "Ai de mim Copacabana", com Caetano, é cosmopolita, uma marchinha carnavalesca e de humor circense. Em "Três da madrugada", Gal e seu melhor acompanhamento, o violão, desaguam a melancolia desesperadora que volta e meia pode te arrebatar às 3:00. Em "Mamãe coragem" a voz de Gal narra uma carta de despedida entre o autor e sua família. Em "Deus vos salve a casa santa" há o reencontro familiar, saudoso e terno. Perto do fim do Lado B entra "Let's play that", um assombro do desbunde presente no primeiro disco de Jards Macalé e que se tornou uma de suas principais canções, um trio afiado e um grito destapado: Vai bicho. Desafinar o coro dos contentes!

               "Torquato Neto: Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia" foi produzido em parceria entre a Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí e a RioArte, do Rio de Janeiro/RJ. O LP teve uma tiragem pequena de 2 mil cópias e distribuição gratuita. O trabalho gráfico é caprichadíssimo com textos exclusivos de Tárik de Souza e Gilberto Gil, alem de fotos, letras, ficha técnica. A única exceção feita ao projeto gráfico fica por conta da escolha da imagem da capa, que traz uma foto desfocada de Torquato Neto, autoria do fotógrafo Maurício Cirne. Entretanto, Torquato não deixou muitas fotos, outras estão distribuídas nas oito páginas do encarte. A obra musical de Torquato Neto foi ampliada com o lançamento do CD "Todo dia é dia D" (Dubas, 2002) que traz um novo compilado das letras de Torquato com outros interpretes.

              Quer ouvir? Download aqui!
              Também disponível no Youtube!

4 comentários:

  1. Muito, muito, muito, muitíssimo obrigado!

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    1. Eliel!
      Obrigado pelo comentário! Você havia me pedido o "Todo dia é dia D"? Aqui está o link, pode baixar! https://mega.co.nz/#!WlIhDJyR!YcWcwR2KY0qtoPvO4ksFFoW809TiTxANKlZc8s9CNcw
      Abraços e obrigado!

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    2. olá, tenho esse disco pra venda.

      http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-710504495-torquato-neto-um-poeta-desfolha-a-bandeira-e-a-manh--_JM

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  2. Olá o arquivo para download no Mega,não está mais disponível,por favor,você
    poderia colocá-lo de novo?Obrigado.

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