quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cabine C "Fósforos de Oxford" (RPM Discos, 1987)


                  Ciro Pessoa, voz e guitarra, montou o Cabine C logo após sua saída do Titãs, em 1984. Nas primeiras formações algumas figuras conhecidas do rock paulista davam às caras, como Edgard Scandurra, Gaspa e Charles Gavin. A formação definitiva veio no ano seguinte com a entrada das garotas, Anna Ruth - ex-Akira S e Nº 2, no baixo - e Marinella 7 - ex Nº 2, na bateria - que somaram à Wania Forghieri da formação original.

               "Fósforos de Oxford" foi criado como ideias de uma viagem de navio pelo mundo, na qual as músicas remetem a lugares próprios, como a Argentina no tango "Lapso do tempo" e uma vista ao Japão em "Jardim das gueixas", esta com participação do stick baixo de Akira S. Há uma forte presença de referências literárias, Edgar Allan Poe ajudou a construir a instrumental "A queda do solar de Usher".
Bizz, edição 10, maio de 1986

             Na produção do disco cabe uma curiosidade: o selo que lançou "Fósforos de Oxford" foi criado pelo RPM. O maior vendedor de discos do rock nacional, e da época, bancou uma curta empreitada fonográfica. A RPM Discos durou menos de um ano e teve apenas um registro no catálogo. O álbum "chegou à lojas" no dia 11 de maio de 1987.

               O disco foi prensado e "distribuído" pela RCA e sem esquema de divulgação chegou a vender 8 mil cópias. Durante os anos de 1988 e 1989 ainda era possível adquirir o disco diretamente coma empresa RPM Discos através do reembolso postal.
Bizz, edição 24, maio de 1987

            Provavelmente o investimento tenha sido alto. "Fósforos de Oxford" foi bem produzido, a cargo de Luiz Schiavon - tecladista do RPM -, mas não foi distribuído, consequentemente não gerou o retorno financeiro esperado. A RPM Discos foi à falência logo após seu primeiro lançamento.

              A falta de relações diplomáticas entre entre o Cabine C e o selo chegou às instâncias judiciais e o caso ficou conhecido no meio do jornalismo musical na época. O assunto rendeu algumas notas publicadas nas páginas da Bizz e em jornais paulistanos. O blog Disco Furado conversou sobre esta cisão e outros assuntos com o mentor do quarteto, Ciro Pessoa!


             [Disco Furado] Havia uma proposta de alguma gravadora grande na época, a RCA, mas vocês acabaram fechando com uma iniciativa fonográfica um tanto curiosa, a RPM Discos. Como foi isso? Que fim levou a ação judicial do Cabine C contra a RPM Discos?

            [Ciro Pessoa] Não havia nada com a RCA e sim com a Warner. O que aconteceu com a Warner você teria que investigar. Estava tudo certo, bem amarrado. De repente, forças estranhas agiram e o convite sumiu, evaporou. É preciso saber quem (artistas e executivos) estava trabalhando lá e porque não queriam que o Cabine C decolasse.
            Quanto ao RPM Discos, gravamos lá por uma única razão : não havia outra alternativa. A ação judicial caducou, não existe mais. 
              (N.E. A nota quanto ao contrato da RCA com o Cabine C foi dada pela Bizz edição 04, de novembro de 1985. Aos artistas e executivos da Warner, entre os anos de 1986/87, estão muitas bandas paulistanas: Inocentes, Gueto, Os Mulheres Negras, Patife Band, Ira!, Ultraje a Rigor, Titãs... Dentre os diretores executivos e produtores estão André Midani, Pena Schmidt e Liminha)

              [Disco Furado] Depois da dissolução da formação do Cabine C que gravou "Fósforos de Oxford", você e Anna Ruth ainda se empenharam na gravação de um segundo disco, "Cotonetes desconexos", que nunca foi lançado. Onde foi parar este disco?

            [Ciro Pessoa] A esta altura do "Cotonetes Desconexos", só eu estava na banda. A Wania ainda era casada comigo, mas não integrava mais o grupo. Anna Ruth e Marinela 7 já tinham saído oficialmente. Ainda tentei levar a banda adiante com um baixista argentino, Paulo Baudouin, e um baterista também argentino, mas nada aconteceu.
               Não sei o que aconteceu com o material gravado que, na verdade, se resumia a quatros músicas - "Sábio Chinês", "Acidentes", "Cotonetes Desconexos" e "Sala de Pentear Cabelos Embaraçados". Acho que devo ter me desfeito dele numa das inúmeras mudanças de casa e acessos de desapego que me aconteceram durante estes tempos. Foi um período de muita insanidade e revolta, bastante sombrio mas muito revelador.

                [Disco Furado] Quando o Cabine C acabou definitivamente?

               [Ciro Pessoa] Não sei ao certo a data. Mas foi logo depois do lançamento do "Fósforos de Oxford" - "Cotonetes Desconexos" foi uma insistência inócua, algo que eu já antevia fadado à inexistência. A verdade é que foi ficando cada vez mais difícil fazer shows, sobreviver. Tudo se concentrava no Rio de Janeiro e lá se você não é do samba você é estrangeiro. E como a cultura carioca dominava (domina) a cidade de São Paulo, nem aqui éramos considerados brasileiros. Fomos nos cansando desta história ridícula, limitada e preconceituosa que é a música no Brasil e nossa resistência no underground foi chegando ao fim. Estávamos miseráveis enquanto o Kid Abelha, Biquini Cavadão e outras torturas musicais cariocas faziam vinte shows por mês.  

         [Disco Furado] Mesmo com uma trajetória curta e tortuosa o Cabine C não foi esquecido e "Fósforos de Oxford" é tido como um dos bons discos brasileiros dos anos 80. Você percebe isso? Vê relevância no trabalho, considera atualidade no disco? Já houve alguma proposta de volta do Cabine C ou de relançamento do disco?

             [Ciro Pessoa] Considero Fósforos de Oxford um bom disco para aquela época. Minha cabeça musical está completamente diferente e nada ou quase nada dos anos 80 ficou. Sou mais crítico deste período do que fã.
            Atribuo o culto à banda a dois fatores : pelo fato de nunca termos voltado a tocar, o que manteve intacta a misteriosa aura da banda e à extrema miséria cultural dos dias atuais. Uma música como "Jardim das Gueixas" (que é a única do disco que tenho tocado em shows com a minha banda atual Nu Descendo a Escada) soa como algo extraterrestre em meio à avalanche de mediocridades musicais que habitam o Brasil.
          Houve dezenas de propostas para fazermos shows. Toda vez que há um revival dos anos 80 os fãs perguntam: e o Cabine C, não vai voltar? Quanto ao relançamento, acho que somos uma das únicas bandas deste período que não voltaram, tive umas duas ou três propostas patéticas do ponto de vista financeiro. Gostaria de relançar o álbum, mas sem volta da banda, shows, estas coisas.  

              Quer ouvir? Download aqui!

2 comentários:

  1. Excelente trabalho.Força,Ciro ! Seu trabalho tem mérito.Nós comentamos sobre o Cabine C no nosso grupo Anos 80 - Trilha Sonora Supersônica.
    Ótimo blog.Grato pela entrevista.

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