segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

[Livro] Fabio Massari "Mondo Massari" (Edições Ideal, 2013)


          Fabio Massari é um daqueles jornalistas musicais acima de qualquer suspeita, sempre demonstrou não ter muita atração por bandas, discos e estilos preponderantemente populares, o que não o transforma num chato anti unanimidade, mas que também não deixa de descobrir o que realmente vale a pena ser ouvido no meio do "oba-oba" que a cultura musical jornalística elege a cada semana. É um sujeito paciencioso e meticulosamente descritivo que há mais de 25 anos trabalha para dar valor aos "bons sons" espalhados pelo mundo.

           Poucos jornalistas musicais conseguem imprimir característica de texto e fala como Massari, talvez por já ter passado por várias mídias - rádio, TV e impresso e internet -, mas principalmente por tratar de maneira facilmente compreensível a obra de artistas, alguns bem distantes dos holofotes.

             Em Mondo Massari temos um calhamaço de produções do Reverendo, uma coleção de textos escritos para a Rolling Stone e para o portal Yahoo - que inclui passagens memoráveis de eventos longínquos e memoráveis como os primeiros shows do Queen e The Police no Brasil. Trechos selecionados de entrevistas realizadas para o programa Mondo Massari, de 1999 à 2000 na MTV Brasil, e que dez anos depois deu origem ao projeto do livro, que se encerra com a transcrição de 32 entrevistas feitas para o programa ETC, na Oi FM, preciosidades que narram a passagem de Jonathan Richman e Vibrators pelo estúdio da Oi, além de outras lendas, como X, Yo La Tengo, Faust e Tom Velaine com depoimentos colhidos em situações variadas. Vale anotar e procurar as dicas preciosas presentes nas 471 páginas do quatro registro bibliográfico massariano.

             Fabio Massari trocou umas palavrinhas com o Disco Furado!

           [Disco Furado] Umas das questões mais frequentes no "ETC" inclui o dilema de artistas com relação a pertinência de se produzir álbuns num momento em que uma música pode ser distribuída gratuitamente e os meios digitais contribuem para o amplo acesso e disponibilidade de singles e discos. Com livros também temos os mesmos questionamentos, ainda que escritores não se manifestem da mesma maneira, você acredita que o desenvolvimento de novas plataformas de leitura e o compartilhamento de obras tragam riscos a sobrevivência do livro em seu formato físico? Você se incomodaria se teus livros estiverem disponíveis para download gratuito?

             [Massari] Acho que de cara vem aquela vontade de estabelecer paralelos, ou algo do gênero: a evolução, a decadência e os novos rumos dos formatos para o consumo dos bons sons e... os livros e o futuro!
                Não sei se isso funciona. A cultura do livro tem uma carga histórica diferente, tá no dna de gerações. Se vai acontecer - já está acontecendo! - uma reavaliação de forças dentro do mercado, tudo certo; são os tempos em que vivemos e ótimo, quanto mais ferramentas existirem, melhor. Acho que nada disso altera a relação com a obra - e a leitura, que é o principal da coisa. Fora que é delírio considerar o extermínio, a obliteração geral e irrestrita(!) de buzilhões de livros editados/publicados ao longo da história. Quanto ao download gratuito... talvez dê para aproveitar um pouco a analogia com os sons: mais gente vai ler e, possivelmente, o percentual que for, vai querer comprar o livro - ou não.
        
           [Disco Furado] Parece que hoje os jornalistas culturais já não têm uma influência tão marcante na definição do que merece ou não ser ouvido (ainda que muitas vezes o que é descrito como péssimo ou pouco aconselhável, também fomente o desejo do leitor de conhecer tal obra, pelo menos um dia isso foi assim). Você concorda com esta afirmação? Se hoje em dia qualquer um pode montar um blog e comentar sobre canções e discos, então vivemos uma fase em que o jornalismo musical não produz mais profissionais influentes para quem gosta de ler sobre música e se informa através de resenhas e entrevistas?

               [Massari] Tudo mais diluído mesmo, espalhado e, muitas vezes, fora do radar da maioria das pessoas - independentemente da qualidade. É o tal do zeitgeist né, é assim que são as coisas hoje em dia: nem melhor, nem pior do que nos tempos em que você tinha 3 ou 4 opções de atividade profissional num mercado como esse - de jornalismo cultural/musical. Hoje muita gente boa (e tem muita gente boa!) pode mostrar sua produção. Assim como as 'novas gerações' consomem os sons de um jeito diferente da... turma dos 90 por exemplo, também se consome o jornalismo musical de outra maneira, mais descentralizada. 


             [Disco Furado] Na entrevista com o Faust há um convite do Jean-Hervé Péron para que você o visite na Alemanha, você afirma que levaria alguns presentes brasileiros e recebe uma resposta "irônica". O que será que Péron pensou? Afinal durante a entrevista há uma referência à maconha, que estampava a camiseta de Werner "Zappi" Diermaier na ocasião.

            [Massari] Não sei de nada! Hahaha. Na verdade foi mais uma piada pronta do Péron, trocadilho verbal, com sorriso maroto, aproveitando a camiseta do grande Zappi - que era uma bandeira só da indiscrição temática!

             [Disco Furado] Teremos uma tradução do livro de Glen Matlock, "I was a teenage pistol"? É um projeto possível para as tuas publicações futuras? 

             [Massari] Esse livro é bem legal, muito divertido, ótimas histórias! O Billy Idol participa de algumas bem curiosas... E o Glen é um cara que está aí, digamos disponível, curte o Brasil. Enfim, se eu puder sugerir (mais) um livro para a Ideal publicar por aqui... tá feita a sugestão! Daí é só chamar alguém habilitado para a tradução - esse não sou eu - e convidar o homem para vir para o lançamento (se possível com uma das suas bandas).

           "Mondo Massari" é um lançamento da Ideal Edições e pode ser adquirido aqui.                           Altamente recomendável!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Inocentes "Miséria e Fome" (Independente, 1983)



            O ano era 1981 e da união das bandas Condutores de Cadáver e Restos de Nada, formações pioneiras do punk rock no Brasil existentes desde o fim de 1978, surgiu, na Vila Carolina - zona norte de São Paulo/SP -, o quarteto Inocentes.
              
              No vocal estava Ariel, um dos punks paulistanos mais articulados com o lado político do movimento. Clemente, autor da maioria das letras, empunhava o baixo e a formação se completava com Tonhão Calegari, na guitarra, e Marcelino, na bateria. "Miséria e fome" foi o disco que o Inocentes gravou em poucas horas de estúdio no começo de 1983, o álbum trazia 13 canções próprias de temas inerentes para aqueles anos de possível abertura política, mas que também dialogavam com medos externos, tais como a ameaça nuclear e a guerra civil em El Salvador, vide "Morte nuclear" e "(Salvem) El Salvador".

        Entretanto, das 13 canções curtas que compunham o que seria o primeiro álbum completo de uma banda punk da América Latina, apenas quatro foram liberadas pela Censura no governo João Baptista Figueiredo, o que forçou a banda a lançar um compacto com "Apenas conto o que vi (o que senti)" - também conhecida como "Miséria e fome" -, no Lado A,  e "Calado", "Aprendi a odiar" e "Morte nuclear". no Lado B.

Revista Pipoca Moderna, edição 05, abril de 1983
            O compacto autofinanciado, mesmo que mutilado pelos órgãos censores, teve uma boa repercussão, as canções de letras ingênuas, mas carregadas de ódio, funcionavam como denuncias de miséria, fome e opressão. A capa do compacto, com a foto de três crianças, ainda é uma imagem comum para quem conhece a miséria tão bem distribuída nacionalmente. O disco teve uma boa repercussão e chegou às mãos de outros cenários punks, como na Finlândia, Inglaterra e Alemanha. O fanzine SP Punk, produzido pelo Inocentes, fez a vez de divulgador do trabalho recém lançado, numa época em que a imprensa parecia não se importar com a movimentação artística e cultural dos subúrbios, como pode-se atestar na matéria com o vocalista Ariel publicada na revista Pipoca Moderna (ver acima). No encarte do compacto uma frase no rodapé convidava outros punks para se corresponder com a banda, mas advertia: "Por favor mande envelope selado para resposta. Somos uma banda pobre". 

Capa da reedição em LP, selo Devil Discos
             O disco completo só foi lançado em LP no ano de 1988. Na edição de "Miséria e fome" do selo paulistano Devil Discos estavam 11 das 13 canções gravadas em 1983, incluindo "Não à religião" e "Maldita polícia", temas que nos anos posteriores também estavam presentes em discos consagrados do Titãs, Cabeça Dinossauro, e Mercenárias, Cadê as armas?. "Vida submissa" trata da multidão silenciosa sob a opressão diária, conteúdo que também reflete na letra de "Não diga não". "Torturas, medo e repressão", anunciava que os 21 anos de Ditadura Militar chegavam ao fim. "Meninos do Brasil", única autoria do Calegari no disco, completa o retrato preto e branco da capa do compacto.

          A capa da reedição em LP trazia uma nova imagem, no lugar das crianças do compacto, agora havia uma foto do Inocentes. "Miséria e fome" também foi lançado em CD, em 2001 pela Devil Discos, com a mesma capa e as 11 canções. Em 2011 o selo Nada Nada Discos reeditou o compacto com as quatro canções e a arte original.

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Johnny Boy "Bar & Cases" (Polytheme Pam, 2006)


              O multi-instrumentista, principalmente guitarrista, paulistano Johnny Boy tem uma vasta trajetória e já tocou com muitas bandas e artistas como Raul Seixas, Nasi, Marcelo Nova, entre outros. "Bar & Cases" é seu primeiro disco solo.

            O álbum de Johnny Boy traz 18 interpretações bem fraquinhas para clássicos do rock'n'roll e baladas de forte apelo popular, em 1 hora e 13 minutos, pelo menos o tempo total do CD foi bem aproveitado, o que pode deixar algum ouvinte satisfeito pelo investimento. O disco não se prende a um estilo e derrapa em muitos momentos, ora pela falta de potência vocal de Johnny, ora pelos arranjos pasteurizados do tipo karaokê, a bateria eletrônica e os arranjos de cordas eletrônicas não ajudam.

                Os piores momentos ficam para "Your song", de Elton John; "Jump", do Van Halen - que por si só já não vale grande coisa; "Just the way you are", de Barry White, só engana o casal apaixonado namorando no canto do bar, isso se o couvert artístico for barato. Tem outros exemplos, incluindo aí o mau aproveitamento do lendário sax de Manito, mas Johnny Boy tem uma trajetória de respeito e já deu para ter uma ideia do disco, não?

             "Bar & cases foi lançado em CD pelo selo paulistano Polytheme Pam e traz um grande encarte com todas as letras cifradas e fotos, algumas muito ruins, do estúdio com os convidados Manito, Vanessa Krongold, Esmeyra Bulgari e do produtor e proprietário do selo. Um trabalho irregular, mas que pode agradar os ouvidos menos exigentes.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os The Darma Lóvers (Barulhinho, 2000)



               Os amantes dos ensinamentos de Buda. Literalmente, é assim podemos traduzir o nome que assume a dupla formada por Yang Zan e Nenung. Os The Darma Lóvers surgiram em 1998, dois anos depois da mudança da dupla de Porto Alegre/RS para o interior, a cidade de Três Coroas, onde se localiza o Chagdud Gonpa Khadro Ling, primeiro templo budista, no formato tradicional dos templos tibetanos, construído no Brasil.

Fotos de Ado Henrichs (retirado da revista Bizz, ed.190 maio de 2001
   

   Dedicados ao budismo e as ensinamentos do monge Chagdud Tulku Rinpoche logo a dupla começou a transformar em música todo o aprendizado e a filosofia vivenciados no mosteiro. Nenung já vinha com experiência de fazer rock'n'roll com sua banda A Barata Oriental, Yang Zan até então não havia se envolvido com música, mas com Nenung completou muito bem a dupla a ponto de as canções, todas cantadas em duas vozes, soarem como um uníssono, Yang Zan também assume ao vivo a parte "percussiva" do duo. Nenung comanda a melodia num violão de poucos acordes, a herança "punk" que também pode ser responsável pela excelente recepção do seu primeiro trabalho.



             O disco sem título traz 14 canções compostas por Nenung, incluindo uma versão para "Fly away", de Lenny Kravitz, batizada de "Ir além". Todo acústico, o álbum é cheio de bons momentos e as letras chamam a atenção, até mesmo aquelas que dizem mais especificamente sobre budismo, como "Três Coroas". "Diamante" traz uma letra carregada sobre a vida pré-budismo e faz um convite ao ouvinte, ainda assim não o álbum chega a assumir tendência de convencimento ou conversão. "Seres estranhos" e "Peixes" versam sobre o mesmo tema, o ser humanos e suas batalhas internas e com o mundo. Dois clássicos do disco de capa branca.  

            Lançado pelo selo Barulhinho, de Porto Alegre/RS, e produzido por Frank Jorge, o disco teve boa repercussão na mídia e no público, além de resenhas elogiosas e um bom número de fãs recém conquistados, a dupla tocou em muitas capitais e logo tornou-se um nome conhecido dentro e fora do cenário underground.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Johnson's "Thanks" (Little Onions, 1998)


             Na segunda metade da década de 90 muitas bandas brasileiras ainda se arriscavam em compor letras em inglês. Apesar de o "cenário" para estas bandas ser bastante restrito, haviam as formações que tinham bom domínio técnico e conseguiam se aproximar de suas referências, mesmo que as letras muitas vezes não tivessem muito o que dizer, mas como o rock não é exatamente passar uma mensagem, pouco importava se o público não compreendesse o que o vocalista cantava/gritava/sussurrava.

             Entretanto, também haviam as bandas que cantavam em inglês, mas que pela falta de talento para compor boas melodias, e de domínio mínimo do idioma de seus ídolos, atingiam resultados medianos e raramente conseguiam sair da primeira demotape. O trio de Luziânia/Go Johnson's faz parte deste segundo time, com a exceção de ter chegado ao primeiro disco e ter participado de eventos importantes, como a segunda edição do festival Goiânia Noise Festival, em 1996, e a gravação de "Direito de fumar" para o disco "Traidô", o primeiro álbum em homenagem ao Ratos de Porão.

          "Thank's" traz 12 canções próprias distribuídas em pouco mais de meia hora. Ouvir o álbum está longe de ser uma tortura, muitas melodias são agradáveis e remetem às guitar bands inglesas, como Teenage Fanclub e Ride - esta na fase "Carnival of light" -, porém os arranjos não trazem criatividade: o timbre de guitarra é sempre o mesmo, o baixo apenas segue as notas comandadas pelo  guitarrista, a dupla de frente é formada pelos irmãos Alex e Alan Patriarca, há também erros perceptíveis de virada de bateria. 

           Mas o pior mesmo está nas letras escritas num inglês do tipo 5ª série, e não há letras no encarte, mas a equalização do som permite que o ouvinte ouça, e entenda (?) o que é cantado. Os título já dão uma mostra, "Love me", "My girl maybe understand", e quando chega em "Bonnie & Clayde" - sim, eles conseguiram errar o nome de Clyde no encarte - é porque está na hora de ejetar o disco.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

V.A. "Emílio & Mauro" (Senhor F, 2007)


             Um dos shows mais importantes da história do rock paranaense não teve muita divulgação, nem muito público, muito menos é lembrado com frequência por quem esteve, ou não, presente. Na verdade, poucos sabem que numa altura do ano de 1993 os bares 92º Degrees e Hole receberam as bandas Graforréia Xilarmônica, Repolho e Emílio & Mauro. 

            Na época a Graforréia era a banda veterana e já havia até mesmo encerrado atividades quando o baterista Alexandre "Alemão" Birck recebeu algumas ligações de Eric Thomas, uma parte do Emílio & Mauro, com o convite para a banda de Porto Alegre/RS tocar na capital paranaense. Com alguma insistência o convite fora aceito e a escalação se completou com a vinda do Repolho, quarteto de Chapecó/SC com dois anos de existência e uma demotape, e o quarteto Emílio & Mauro, formado em Curitiba naquele mesmo ano e sem nenhum material.

                  O evento se tornou histórico por reunir três bandas com um proposta parecida, a de alterar a jovem guarda, ou de fazer uma "vanguarda jovem" com os pés fincados lá nos anos 60, mas com arranjos anárquicos e as letras naquela breguice meiga de corações quentes misturados a cerveja gelada. O encontro das três bandas provou que o sul do Brasil vivia naquele momento uma efervescência para poucos, todos imbuídos numa temática próxima, mas bem longe de ser um ideal.

                  Deixemos claro, para quem não sabe, que Emílio & Mauro não é uma dupla, muito menos tem algum integrante que atende por um dos nomes da suposta dupla, trata-se de um quarteto, sem baterista fixo, que nas poucas apresentações se completava com duas garotas fazendo backing vocais. O único registro viria depois que Emílio & Mauro já haviam encerrado atividades. Aquelas cerca de 50 canções que formavam o repertório ao vivo pediam por uma gravação que só veio em 1997, através de uma demotape de 50 cópias chamada "E que tudo mais vá pro inferno!" (Brasa Records). 

                A fita logo se tornou artigo raro e chegou às mãos de quem realmente já conhecia Emílio & Mauro, o suficiente para criar no sub-underground, espaço onde se localizam bandas com discos registrados em cassetes e fãs fieis em busca de conhecer aquilo para poder chamar "de seu". "E que tudo mais vá pro inferno!" é um reverência à tosqueira, dá capa com o diabinho até a gravação caseira com bateria eletrônica e erros de execução adicionais, tudo estava a serviço do lo-fi e da produção em computador, neste caso a tecnologia coube bem e até é difícil de pensar numa produção melhor para registrar definitivamente as 14 canções da demotape - que pode ser ouvida aqui!

          Contudo, os registros definitivos e melhor produzidos estão neste tributo - enfim chegamos ao disco, desculpa aí, mas no caso de Emílio & Mauro a lenda deve ser sempre lembrada. O disco com 23 canções reinterpretadas e também pode ser considerado o único disco da banda. No tributo 16 bandas de seis estados brasileiros revistam um repertório obscuro à sua maneira. O álbum abre com Osmarmotta refazendo nada mais do que oito canções do Emílio & Mauro, para este trabalho "arqueológico sonoro" houve a "curadoria" de Eric Thomas nos arranjos e nas letras, curiosamente o disco começa com a mesma "La Sonateta" que abre o único "disco"/demotape" dos homenageados. Osmarmotta trabalhou muito bem as canções que pegam nos ouvidos, como em "Estrela do mar" e "Tabaco de Menta". Canções de amor, algumas desesperadamente tristes, mas carregadas de humor e deboche.

                 Das outras bandas vale destacar o country-rockabilly do Bettie & The Bel Airs para "Beijo molhado"; o punk à Jovem Guarda dos cariocas do The Feitos para "Cheiro de amor", uma história de amor à Van Gogh com cheiro de álcool; o Mordida, que não poderia faltar, pois traz na formação uma parte de Emílio & Mauro, o guitarrista e vocalista Paulo Hde Nadal; a psicose garageira do tipo goth'a'billy do Gianinnis para "Laura"; a Graforréia Xilarmônica refazendo a história de amor emborrachada do hit "Adriana", também gravada pelo Repolho, para decepção dos fãs dos "colóno" que acreditavam ser uma canção de autoria dos irmãos Panarotto; os brasilienses do Sapatos Bicolores injetaram balada em "Prelúdio de amor e saudade" (fica até difícil chamar alguma destas canções de balada, pois todas são). Mas balada mesmo é "Pombo correio" na versão do Stereo Tipos, uma das mais belas letras de amor de Emílio & Mauro, o erro dos versos não foi perdoado nos comentários. Marcelo Mendes e Os Bacanas, discípulos candangos desta tríade neo-jovemguardista, mantiveram a produção lo-fi para "Jura-me"; O Capitão Sete entre blips e blops preservaram a mesma citação incidental de Celly Campello na doida "Barney Bun", há também um "roubo incidental" de parte do arranjo de metais de "Sossego". Os Atonais, fãs declarados da banda curitibana, fizeram bossa-nóia de "Disque é mentira", sensacional! O Repolho, que em algum momento também tem sua história confundida com parte da lenda Emílio & Mauro, botou vanerão invertido em "Carla Fernanda".

                Das maluquices, nenhuma chega a linda versão do Les Incompris para "Limão do futuro"; há também o black metal do Belzebrujos, de Altamira/PA, botando influência Mystifier no meio da Jovem Guarda alterada de "Desgraçada", o Eric Thomas gostou. E o punk/hardcore do Rancor numa versão mista de "Blitzkrieg bop" para "Narivaldo".

              O projeto gráfico beira à perfeição. O disco vem embalado num envelope tal como uma correspondência de Emílio & Mauro para o ouvinte, que no caso assume a função de "destruidor de corações". O encarte traz depoimentos de 16 entusiastas da dupla, entre músicos, jornalistas e fãs, incluindo uma fã psicografada, mais todas as letras, com comentários, além da bela capa. O álbum foi lançado em tiragem de 500 cópias pelo selo Senhor F e está esgotado há muito tempo. Portanto, aproveite para conhecer e baixe o disco no link abaixo.

              Quer ouvir? Download aqui!