quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crazy Legs "Off society rules" (Thirteen Records, 2001)


              Nos anos 80 o rockabilly foi resgatado por uma série de novas bandas em todo o mundo. Valia imitar e adaptar aos tempos de New Wave toda a estética dos primeiros e autênticos rockers, topetes engomados, sapatos em duas cores, jeans e jaquetas de couro.

Como não era mais possível levar a vida ao estilo anos 50, o estilo rockabilly ganhou no nome o apêndice Neo e mostrou que apesar dos atropelamentos sucessivos, que transformaram o rock em algo bem distante dos seus primeiros anos, ainda resistia na memória auditiva e afetiva de pessoas que não apenas cultuavam o estilo juventude transviada, mas também se alimentavam dos discos de Carl Perkins, Gene Vincent, Eddie Cochran e Stray Cats, este o principal nome do Neo Rockabilly.

          No Brasil o Neo Rockabilly teve o seu maior expoente ainda durante o ressurgimento do estilo com o quarteto paulistano Coke Luxe, de vida efêmera, mas com influência em tudo o que se fez no rockabilly nacional nos anos seguintes. Entretanto, por aqui poucas bandas se aventuraram em fazer rockabilly, muitas formações não chegaram a gravar e outras enveredaram o estilo para híbridos com a surf music, além de psychobilly, punk-a-billy, jazz-a-billy e  outros. Pode-se afirmar que não há muitos nomes do Neo Rockabilly em atividade, dá para contar nos dedos de apenas um mão e corre-se o risco de sobrar dedo. Dentre os nomes mais importantes do estilo no Brasil está o trio paulistano Crazy Legs.

          "Off society rules" é o primeiro registro da banda formada por Henry Paul, Sonny Rocker e McCoy. Um petardo de 13 canções em pouco mais de meia hora, no qual o Crazy Legs desfila as características básicas do rockabilly: baixo acústico bem marcado, kit de bateria econômico - apenas bumbo, caixa, prato de condução e chimbau -, e guitarra limpa desfilando solos em quase todas as canções. Todas as letras são em inglês, a maioria composta pelo baterista McCoy, com exceção das regravações, que não são poucas, com destaque para uma improvável e deliciosa versão para "Tainted love". 

            Não vale a pena destacar esta ou aquela canção, até mesmo a ordem das músicas no disco favorece a audição completa, "Please, please dad" e "16 & pine" servem para aquecer, em "Jack & his triumph" você já está estalando os dedos no ritmo da caixa e em "Leave me alone little baby" e "Off society rules" a mesinha de centro da sala já foi empurrada para o canto. Para acalmar tem a balada "Mostest girl".

            O álbum foi produzido pela própria banda e lançado pelo selo de Taubaté/SP Thirteen Records. O projeto gráfico é bastante completo e traz letras, ficha técnica e várias pequenas fotos do trio posando ao lado de um carro GMC. "Off society rules" é o único trabalho do Crazy Legs gravado com o vocalista Henry Paul. Um daqueles discos que pode-se ouvir em qualquer lugar e com qualquer companhia. Desconfie de quem não gostar!

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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Saci Tric (CD-demo, 1997)


             Formado em 1994, o quarteto de Salvador/BA Saci Tric atravessou a década de 90 produzindo demos, fazendo shows e influenciando uma série de outras formações na capital baiana.
Bizz, edição 184, novembro de 2000

           Este trabalho é um CD-demo, tem apenas quatro canções e não passa dos 12 minutos. A produção é muito boa e o disco podia ser um caprichado EP se tivesse recebido o mesmo cuidado com a produção gráfica, esta concebida de forma artesanal ainda que acompanhe letras e ficha técnica.

           O disco abre com "Coração superbacana", canção com cara de jovem guarda alterada tipicamente tropicalista, com contornos mais hard no refrão. "Botei" é mais funk e com solos de guitarra que atravessam toda a canção. Todas as letras são do vocalista Ronei Jorge. "Canal 100" fala sobre a alegria de torcer/sofrer por um time pequeno e também fez parte do repertório ao vivo da Penélope, outra banda baiana que dividiu palco e integrantes com o Saci Tric.

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Space Invaders "Nas infecções mais graves, a posologia pode ser aumentada para 100 angstrons (2 comprimidos de 50)" (Bizarre, 2001)


           O longo e estranho título já dá uma mostra: o primeiro disco do trio de Pouso Alegre/MG não é um trabalho fácil. Criado na liberdade anarquista de arranjos, o som do Space Invaders é inclassificável. O híbrido de baixo-guitarra-bateria não segue nenhuma linha, ainda que divida com outros grupos, como o PexbaA, Diagonal e Debate, uma semelhança criativa, cada um à sua maneira.

        "Nas infecções mais graves..." traz 10 canções próprias de nomes tão improváveis quanto o que marca a lombada do CD, tais como "Seco ao abrigo da luz" e "Roberto Carlos". Muitas músicas têm vozes, mas não exatamente letras, ou então, sim, há letras, mas numa língua que ninguém entende. Portanto, não se trata de um álbum instrumental, mas é experimental até o som do último acorde. Os melhores resultados do trio estão em "Image coat hanger", "Valnei" e "Dança do sofá", esta puro Minutemen, muito bom! "Riff guide" fecha o álbum e traz a participação do coletivo Instituto e Lurdez da Luz. 

       Gravado em 1999 no estúdio El Rocha, em São Paulo/SP, o álbum foi o primeiro lançamento do selo paulistano Bizarre Music. O projeto gráfico é simples e com poucas informações, não há fotos do trio, muito menos "letras", se resume à ficha técnica econômica e design do ilustrador Rafael Lain.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Grenade (Slag Records, 2004)


            A capa com foto das quatro faces dos integrantes da banda em tom azul sob o fundo vermelho no qual se lê o nome Grenade na margem superior centralizada entrega, estamos diante do quinto disco da banda de Londrina/PR.

          O quinto trabalho do Grenade é também o primeiro. O primeiro a trazer o Grenade no formato banda, pois nos trabalhos anteriores quem assumia a banda era apenas o vocalista/guitarrista Rodrigo Guedes e seu porta-estúdio de quatro canais responsável pela gravação dos discos que fizeram do Grenade a one-man-band mais cultuada no underground brasileiro no final da década de 90.

           Grenade, o álbum, não tem título, o que mostra que o disco trouxe realmente uma guinada musical na vida de Rodrigo Guedes, do lo-fi à Guided By Voices, que deixou pelo menos um clássico - o disco "Grenade Is an Out of Body Experience" (Ordinary/Duckweed, 1999) - para o rock estradeiro de pés fincados nos anos 60/70.

               O álbum abre com a curta vinheta "Turn the page" que remonta aos tempos do porta-estúdio e logo em seguida, com "Old wish", já atira para longe a primeira das demais 15 canções próprias de arranjos caprichados e letras em inglês, num caso raro de banda que sabe compor e cantar na língua de Paul McCartney sem parecer um aluno do CCAA.

              As guitarras puxam canções como "Rainmaker", "Erase your head" e "Secret trick" e alternam momentos mais acústicos e bucólicos - "Gooday", "For her" - com riffs distorcidos que remetem ao Crazy Horse de Neil Young, influência mais que assumida de Rodrigo Guedes. O disco é repleto de lindas canções e aconselha-se ouvi-lo todo. Contudo, vale destacar algumas pérolas como a delicadeza alt-country de "Moving on", o 'crescendo' blues hipnótico de "Tonight" e a psicodelia de "Leave me alone" que fecha o álbum, impossível ouvir o fim do tema com barulhos de guitarra sem se lembrar do primeiro álbum do Killing Chainsaw.
Revista Zero, edição 11

         O formato banda foi fundamental para as canções ganharem pungência, mas a produção, feita toda num pequeno estúdio em Londrina, e, principalmente, a masterização a cargo de Steve Fallone - que tem no currículo trabalhos com Luna, Strokes, Sonic Youth, dentre outros - são responsáveis pelo som equilibrado do álbum, ainda que as guitarras sempre se sobressaiam.

            Gravado em 2002 o disco só chegou ao mercado em 2004 pelas mãos do selo paulistano Slag Records. A repercussão na mídia especializada foi excelente e o álbum figurou nas listas dos melhores discos do ano em várias publicações, também foi lembrado como um dos melhores discos nacionais lançados na primeira década do novo milênio. Há muito fora de catálogo, assim como os demais raros trabalhos do Grenade. Altamente recomendado!

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domingo, 27 de outubro de 2013

Psycho Drops "Another people" (W.O.D, 1994)


           O Psycho Drops atravessou a década de 90 lançando demo tapes, produzindo discos e fazendo shows,, neste tempo chamou atenção de produtores e público, mas sumiu sem deixar maiores vestígios depois de lançar o segundo disco, "Medo de ninguém" (Warner, 1996). O trio surgiu em 1991 na capital paulista, dois anos depois lançou a primeira fita demo e no ano seguinte o primeiro registro oficial.

               "Another people" é bem produzido, traz 13 canções próprias com letras em inglês em 38 minutos. Como um bom fruto de sua época, é possível observar características de bandas grunges, como em "Dinner" e "Slow". Mas não fica apenas na referência contemporânea daqueles anos, o disco é pesado e soa como poucos álbuns nacionais disponíveis até então, destaques para "Rage", "Art" e "Children watchin' TV".

           O álbum foi lançado pelo obscuro selo francês W.O.D. numa ocasião no mínimo curiosa. Um acordo verbal entre o Psycho Drops e o dono da gravadora garantia que o selo pagaria a gravação e lançaria o álbum, para a banda ficariam mil cópias e serem distribuídas no Brasil, o restante seria divulgada da França. O que de fato ocorreu. As cópias brasileiras logo desapareceram, assim como a W.O.D. Records e toda a promoção gringa. O CD foi fabricado nos Estados Unidos, entretanto, o encarte do disco apresenta um endereço em São Paulo para a W.O.D.

           Nos anos seguintes a banda preparou outra demo tape e foi sondada pelo selo Banguela para um novo disco. Mas a Banguela Records fechou as portas antes de "Medo de ninguém", que trouxe o Psycho Drops com letras em português, chegar ao mercado, o que só veio via WEA, a gravadora que dava suporte de distribuição para a Banguela.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

V.A. "Baião de Viramundo - Tributo a Luiz Gonzaga" (YB/Candeeeiro, 2000)


              Em 2000 o Velho Lua completaria 88 anos, mas "Baião de Viramundo" não se trata de um disco comemorativo, e sim de um tributo com vários nomes brasileiros, grande maioria pernambucanos, afirmando (ou não) a influência que o rei do baião tem em seus trabalhos próprios. A seleção é bastante abrangente e os arranjos nem sempre são levados à risca. Pelo contrário, dos 16 nomes selecionados poucos são os que mantém suas versões próximas do originais.

             O disco abre com o encontro dos rappers Black Alien & Speed Freaks com Rica Amabis para recriar o lamento "Vozes da seca". DJ Dolores, acompanhado de vozes das meninas da Comadre Florzinha e mais samplers desconstrói "A dança da moda". Otto injeta pandeiro e eletrônica pé-de-serra em "Orélia". Stela Campos desacelera "Sabiá". Um dos maiores clássico de Gonzagão, a linda "Qui nem jiló", não perde tanto na voz de Andrea Marquee, ainda que a canção merecesse um melhor tratamento. O mesmo acontece com os arranjos finos do Nouvelle Cuisine para "Acauã", descaracterizando completamente a toada composta especialmente para o "William Hearst canastrão" Assis Chateubriand. O Sheik Tosado desce a lenha frevo-hardcore em "Assum preto" outro grande sucesso de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Anvil FX em companhia do canto narrado de Lex Lilith - aka Alex Antunes - despejam esquisitice noise-eletrônica na homenagem "LG - tu'alma sertaneja". A Nação Zumbi imprimiu sua personalidade no forró viajante de "O fole roncou". O Eddie, que é bom de ritmo, quebrou o balanço de "Retrato de um forró". A percussão infinita de Naná Vasconcelos e as cordas de João Carlos transformaram o lamento de "Juazeiro" numa canção instrumental, densa e detalhista. 

              Dos que fazem do "Baião de Viramundo" uma homenagem sem interferir tanto nos xotes, baiões e forrós, vale destacar a bela interpretação do Mestre Ambrósio para "Cacimba nova", na qual Siba se mostra como um dos herdeiros da melancolia do filho de Exu. O mundo livre s/a reinterpreta bem o divertido debate-embolada "Dezessete e setecentos". O Cascabulho segue a mesma linha do Mestre Ambrósio e levantam a poeira 'for all' em "De Juazeiro a Crato", a canção não deu trabalho para a voz Silvério Pessoa, altamente influenciada pelo menino de Exu. Chão e Chinelo mantém o peso no baião de retirante "Marimbondo". O quarteto de vozes femininas Comadre Florzinha resgatam o baião "Minha fulô" num arranjo econômico de percussão.

         "Baião de Viramundo" foi lançado pela união dos selos YBrazil?Music, de São Paulo/SP, com o selo candeeiro, de Recife/PE. O projeto gráfico, a cargo de Valentia Trajano e Jorge Du Peixe, é caprichado e bastante completo, traz ficha técnica dos participantes e texto do jornalista Xico Sá para todas as canções. O disco teve uma repercussão razoável e logo tornou-se um trabalho de difícil alcance de público, que em sua maior parte não viu homenagem alguma nas 16 versões de sucessos de Luiz Gonzaga.

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Living in the Shit "Chá Magiológico" (Rec Beat Records, 1996)


              O Living in the Shit foi formado em Maceió/AL no começo da década de 90, as primeiras demo-tapes da banda traziam um som pesado, meio metal e punk, com letras em inglês de títulos bastante explícitos como "Carrot in the ass" e "Expectorate in you". Com o passar dos anos a banda foi adicionando novas influências em seu som, notadamente do manguebeat, mas também do rap e hardcore.
Bizz, edição 130, maio de 1996
              O fruto destas transformações no som do quinteto está presente em seu primeiro e único disco, "Chá magiológico". O álbum gravado entre 1994 e 1995 traz 16 canções com letras em inglês e português em quase uma hora de duração. A influência do manguebeat está na percussão e nos arranjos de guitarras, cheias de peso e groove. Por sinal groove é o que não falta em "Chá magiológico", com destaque para "Rojão", "Chá magiológico" e a instrumental "Awinthila dreams". O disco também traz punk rock sem letra, "B line"; reggae, "Raputenga" e ska, "Cabelo é bom pra descabelar". Assim como seus contemporâneos, a maconha também é reverenciada nas letras, "Ganja yeah!" e "Eu quero charlar", esta uma das melhores canções do álbum.

             "Degustação" é a única exceção às próprias, e também a mais escatológica de todas, autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho. "Pessoas bad comunication" já havia sido apresentada na coletânea "Brasil Compacto" (Rockit!, 1996) e conta com a participação de Lucio Maia (Nação Zumbi) na guitarra e Stela Campos nos vocais.

          "Cha magiológico" foi lançado pelo selo de Recife/PE Rec Beat Discos e teve excelente repercussão. O projeto gráfico e bastante completo com letras, ilustrações, ficha técnica e endereços de fanzines fundamentais para a cena roqueira do nordeste como Escarro Napalm, de Aracaju/SE, e Bio Arte, de Maceió.

           Provavelmente o Living in the Shit tenha sido o nome mais conhecido do cenário roqueiro alagoano de projeção nacional nos anos 90. Entretanto, tal recepção ao trabalho não foi suficiente para manter a banda em atividade nos anos seguintes. Depois do fim da banda, e 10 anos após o lançamento de seu único disco, o Living in the Shit voltou para uma ocasião comemorativa no Festival de Música Independente, em Maceió.
        
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domingo, 20 de outubro de 2013

Grinders (Ataque Frontal, 1987)



               Principal nome do skate punk brasileiro, o Grinders foi formado no ABC Paulista em 1984 por jovens punks que andavam de skate. A proposta inicial era fazer um som, punk rock/hardcore, cujas letras não fugissem dos temas do cotidiano, mais precisamente do cotidiano das pistas de skate.

            A primeira gravação em disco aconteceu no ano seguinte à formação da banda, na coletânea "Ataque Sonoro", que reuniu 10 bandas punks de Sâo Paulo e Rio de Janeiro. Da coletânea saíram dois clássicos do Grinders, "Skate gralha" e "Como é que pode?". "Skate gralha" foi cantada em pistas do Brasil todo, atravessou gerações e tornou conhecidos os autores daqueles versos que enxotavam o mau skatista que "tesourava" e atrapalhava os outros, "vai prá casa animal!". "Skate gralha" é entoada em picos de skate até os dias de hoje.

Bizz, edição 28, novembro de 1987
           A gravação do primeiro disco aconteceu em 1986, 12 canções com produção de Redson Pozzi (1962-2011), o lançamento só veio no ano seguinte pelo selo Ataque Frontal. O som era punk rock com influência de surf music que já se esboçava nas bandas de skatepunk norte-americanas, como Agent Orange, TSOL e Boneless Ones. O disco abre com a canção instrumental que dá título à banda, segue com o clássico "Skate gralha", o tema skate também ganha as letras de "Ande de skate ou morra" e "Minha vida". Uma versão, também instrumental, para o tema do "Homem Aranha" comprova a aproximação do punk rock com surf music. Outros temas caros às bandas punks também dão as caras aqui como o anti-nazismo, "Destrua um monstro nazista", militarismo, "Serviço militar", e miséria, "Ruas de Soweto".

           O álbum fecha com "Como é que pode?" e "Puta vomitada", esta última é outro clássico do Grinders, também gravada pelo DFC e sempre presente no repertório de muitas bandas punks brasileiras, como os curitibanos do Ovos Presley que sempre incluem a música em seus shows.

                O álbum teve excelente repercussão e levou o Grinders a se apresentar em muitos festivais. A capa de George G, sob idealização do baterista Tuka, tem muita identificação com o trabalho sonoro do quarteto e está entre as melhores capas de discos brasileiros.

               O Grinders se manteve até na ativa 1993 e retornou em 1996 para shows. Em 2000 o primeiro disco foi relançado em CD, pela mesma Ataque Frontal e com o acréscimo de mais 16 faixas incluídas como bônus. A volta foi comemorada e incentivada por fãs da banda como Marcelo Donald (Gritando HC), Chorão (Charlie Brown Jr.), Tatola (Não Religião) e Renato Martins (Ataque Frontal). No final da primeira década do novo milênio o disco ganhou nova edição em CD no formato digipack, numa parceria da Ataque Frontal e Thirteen Records, mantendo todos os bônus da primeira edição em CD e com o título "Skatepunkmusic".

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Red Eyes "Red as hell" (Holiday Records, 1998)


            O quarteto paulistano Red Eyes surgiu em 1993 com a proposta de fazer rock'n'roll pesado e cheio de groove com letras em inglês, algo até então bastante comuns às bandas iniciantes das garagens brasileiras. O Red Eyes atravessou a década de 90 se apresentando em bares da capital paulista, participou com duas músicas na coletânea "Stars of collection" e chegou ao primeiro disco em 1997.

Dynamite, outubro/dezembro de 1998
            "Red as hell" foi lançado inicialmente em fita cassete e ganhou edição em CD, pelo selo de Limeira/SP Holiday Records, em 1998. O disco, na verdade um EP, traz 7 canções próprias, sendo que a primeira, "Hit'n run", não está presente na edição em K7. o Red Eyes mostra um bom entrosamento e arranjos bem elaborados, se atrapalha um pouco nas letras e interpretações, mas se o que importa mesmo é o rock'n'roll, nisso o quarteto dá conta do recado. Guitarras bem trabalhadas em "Nerves of steel" e "Hate" mostra que o Red Eyes mantinha os pés fincados no grunge.

             O álbum foi produzido pelo guitarrista argentino radicado em São Paulo Alejandro Marjanov. O projeto gráfico é simples e embalado em envelope, traz informações técnicas de gravação, letras e ficha técnica. O disco foi bem cotado em resenhas de fanzines e outras publicações independentes voltadas à música do final da década de 90.

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Velho de Câncer (Punch Drunk/Cafe & Raiva/Fodam Meus Discos/Crimes pela Juventude/Capitão Lixo, 2009)


            Velho de Câncer é um trio de Porto Alegre/RS que faz um hardcore bastante próprio, não tão rápido como o hardcore old school, não tão quebrado como a escola aberta pelo Fugazi. Se há uma desconstrução da estética sonora do hardcore, são nas letras que a banda se firma como um dos bons nomes do punk/hc nacional dos últimos anos.

           No primeiro disco completo o Velho de Câncer traz 16 canções em pouco mais de meia hora. As letras versam sobre sensibilidade e cotidiano no qual raiva e indignação são lançadas sobre a humanidade. As letras ganham mais significado com a interpretação caótica e desafinada do vocalista e guitarrista José, ouça "Raiva de espírito", "Laboral" e "Ônibus errado". Os arranjos são outro ponto alto, vide "A van", "O som não é justo" e "Cidade morta".

        As gravações aconteceram em momentos distintos, as primeiras 9 canções foram registradas em 2007 e as demais em 2006. O projeto gráfico conduzido pelos ilustradores Mario Alencar e Flávio Bá é muito caprichado e mostra bastante sintonia com o som do Velho de Câncer. O lançamento ficou a cargo da união dos selos Punch Drunk, Fodam Meus Discos, Crimes pela Juventude, Capitão Lixo e Café & Raiva Discos.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Frank Poole "... A coerência é uma armadilha" (Monstro Discos, 2001)


              O 10º lançamento do selo goiano Monstro Discos trouxe o único registro do quarteto de Brasília/DF Frank Poole. "...A coerência é uma armadilha" trata-se de um EP com 6 canções experimentais feitas por jovens que estavam aprendendo a tocar seus instrumentos ao mesmo tempo em que compunham. Como o próprio título afirma, não procure coerência no som muito menos nas letras em português, tudo é uma armadilha.

Bizz, edição 198, abril de 2001
          Os temas são longos e barulhentos, as letras ficam aquém do som ruidoso à Sonic Youth e Galaxie 500, na maioria das vezes não querem dizer nada, e nem sempre passam despercebidas, "Infanticídio" é um exemplo negativo. "Canção para Cecília" passa  dos oito minutos, boa parte destes preenchidos com noise de guitarra. "Alguma coisa sobre bêbados" é a mais curta e a única totalmente instrumental. O álbum fecha com "A saga sem fim do gollo gallático" um remix interminável cheio de repetições e passagens coladas que beira os 20 minutos.

          "...A coerência é uma armadilha" foi gravado entre março e agosto de 2000, traz participações de Zé Pedro Gollo, Daniel Chaib, Simone Iunes e Rafael Cury. O projeto gráfico é muito caprichado com pinturas de Alberto Monteiro embaladas em formato digipack, nas traz as letras. O álbum teve repercussão mediana e há muitos anos está fora do catálogo da Monstro Discos.

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sábado, 12 de outubro de 2013

Fellini "Você nem imagina" (Brsounds, 2010)



               Principal nome do pós-punk brasileiro, o cultuado grupo paulistano Fellini já decretou algumas despedidas, na verdade pode-se afirmar que a banda já começou declarando sua passagem meteórica, vide o título do primeiro álbum, "O adeus de Fellini" (Baratos Afins,1985).

             No começo da década de 90 após lançar seu disco mais cultuado e melhor produzido, "Amor Louco" (Wop Bop, 1990), o Fellini enfim se afastou dos discos e palcos, mas não foi esquecido, pelo contrário, durante a última década do século passado o quarteto ficou cada vez mais conhecido a ponto de atingir um status cult que coube muito bem à sua proposta estética e musical. A volta só veio em 1998 com shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. 

            Em 2000 o Fellini foi convidado para tocar no Festival Rec Beat, em Recife, cidade na qual o grupo paulistano exerceu influência tão intensa a ponto de ser citado como referência para o movimento Mangue Beat. Chico Science disse em matéria publicada na revista Bizz que comprava os discos do Fellini pelo reembolso postal da Baratos Afins. Em 2002 foi lançado, pelo selo carioca Midsummer Madness, o álbum "Amanhã é tarde" um inesperado disco que trouxe o Fellini reduzido ao núcleo Cadão Voltado & Thomas Pappon + Tascam de quatro canais (este praticamente o 5º Fellini), assim como aconteceu no segundo disco "Fellini só vive duas vezes" (Baratos Afins, 1986).

         No ano seguinte foi a vez da banda tocar no Tim Festival, em São Paulo, desta vez a volta foi anunciada como o "último adeus" na capa do caderno Ilustrada na Folha de S. Paulo. Mas o adeus não foi definitivo e o Fellini desencanou de se abandonar, afinal a distância dos palcos só alimentava a vontade dos fãs, velhos e novos, de ver o quarteto ao vivo.

        Em 2009 o Fellini retornou para uma nova "tour" de 3 shows, dois em SP, um em Curitiba. A ocasião rendeu ensaios com uma formação nova, com Thomas e Jair Marcos nas guitarras e o baterista convidado Clayton Martin. As canções continuaram com os mesmos arranjos, agora um tanto acelerados. Um formato de banda semelhante ao que fora registrado no primeiro disco e no terceiro, "3 lugares diferentes" (Baratos Afins, 1987).

Fellini no Rock de Inverno, Curitiba 2009 (Foto ruim: Marcelo Mara)

        "Você nem imagina" foi registrado depois da "tour", no último encontro de 2009 no Studio Paris sob os cuidados de Rainer Pappon, e traz um repertório muito bem escolhido. Ficou de fora músicas do discos em que o Fellini se limitou à dupla Thomas Pappon & Cadão Volpato. Assim ganharam espaço verdadeiros hits, "Rock europeu" e "Teu inglês", e outros "sucessos" como "Zum zum zum zazoeira", "Nada" e "Funziona senza vapore". 

        O álbum abre com "Massacres da coletivização", um dos melhores momentos do terceiro disco que também deu a releitura de "Pai" e da belíssima "Ambos mundos". Do "Amor louco" vieram "LSD", "Chico Buarque song" e "Clepsidra", esta beirando a perfeição. principalmente ao vivo com os vocais de apoio de Thomas, tão emocionante quanto no disco.

         O álbum foi lançado pelo selo criado pela banda, o Brsounds numa tiragem de mil cópias. O projeto gráfico tem capa assinada por Fabio Spavieri, uma novidade para o Fellini que sempre teve o vocalista e letrista Cadão Volpato como autor das ilustrações. O encarte contém todas as letras e texto do Cadão relembrando as primeiras semanas da banda. Na única foto há o mesmo cartão que acompanhava como encarte o disco "O adeus de Fellini".  

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Go! "Aventura sob o céu" (Navena Musik, 2002)


                O trio carioca de surf music instrumental Go! foi um nomes mais legais do estilo na virada do século. "Aventura sob o céu", o primeiro registro da banda, traz 16 canções que combinam surf music com trilha de vídeo game. A mistura do esporte praieiro com a diversão preferida de adolescente criado em prédio deu certo. Os três rapazes podem não ter jeito de quem pega onda, mas são muito bons instrumentistas, como atesta o guitarrista Björn.

            "Aventura sob o céu" mistura vinhetas em oito bits com surf music acelerada, as músicas são repletas de barulhinhos, como em "Rockman", mas são ótimas para dançar, tente ficar parado ou não fazer uma bateria imaginária  ao ouvir "Destrua o meu chip quando eu morrer", "Bônus do quadrado mágico" ou "Ninja Gaiden II 3.2". O disco também tem baladas, "Robotic leisure" e a faixa título; tem até uma exceção às instrumentais, "Você está se tornando um ser humano galático", com vocal soterrado em areia. São 33 minutos de diversão garantida!

               O álbum foi o primeiro lançamento do selo e loja de discos carioca Navena Musik, que então comemorava seu primeiro ano de existência se arriscando na produção de discos. Produzido por Gabriel Thomaz e Go! o disco teve boa repercussão e levou o trio a se apresentar em festivais importantes como o Goiânia Noise e o Campeonato Mineiro de Surf, festival este que teve o Go! em várias edições. Nos anos seguintes a banda desacelerou um pouco a surf music e adicionou letras ao instrumental bem resolvido, o que não foi suficiente para tornar o Go! um nome reconhecido nacionalmente.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Nevilton "De verdade" (Sombrero, 2009)


                  O primeiro disco do trio de Umuarama/PR chegou ao mercado com certa ansiedade por parte do público e da mídia. Há alguns anos que a banda que leva o nome de seu vocalista e guitarrista chama a atenção. As canções em português têm uma característica pop que ganham o ouvinte facilmente, os shows energéticos combinados com a boa execução dos arranjos fazem do rock do Nevilton uma das boas revelações da música jovem brasileira no final da primeira década do segundo milênio.

                   Depois de um bem recebido EP, o trio teve tempo para preparar o primeiro trabalho completo. Algumas canções como "Pressuposto", "Vitorioso adormecido" e "Delicadeza" foram resgatadas do EP de estreia e funcionam como "hits" da banda. Contudo, "De verdade" mostra ainda mais o potencial da banda para as boas melodias e versos, a prova está em "Ballet da vida irônica", canção pop perfeita que poderia rolar em qualquer programação de FM. Quer outros exemplos semelhantes, ouça "Tempos de maracujá" e "Paz e amores". Alguém pode falar que sobram ecos de Nando Reis e Los Hermanos, mas não é por aí, Nevilton é bem mais rock que estas referências, vide "Me espere, menino lobo", canção que fecha o disco.

                Apesar de ser um trio, os arranjos não deixam brechas, o frontman se mostra também um exímio nas seis cordas, além de ser o autor de todas as 14 canções e assinar a ilustração "Mundo coração" presente na capa. "De verdade" foi gravado em 2009 no estúdio YB em São Paulo/SP e lançado de maneira promocional pelo selo Sombrero, o álbum ganhou reedição posterior pelo selo YB.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

The Junkie Jesus Freud Project "A cow called floyd" (Cogumelo Discos, 1993)


              The Junkie Jesus Freud Project. O nome é estranho. O som também, mas isso nem sempre é bom. Por trás do extenso nome estão sete pessoas, alguns membros de bandas bastante conhecidas do metal nacional, como Holocausto, The Mist e Chakal, além do Virna Lisi, numa tentativa de fazer um trabalho desvinculado com suas produções anteriores. Pode-se afirmar que conseguiram, é difícil encontrar parâmetros entre o Junkie Jesus Freud com o cenário heavy metal que ajudaram a criar em Belo Horizonte nos anos 80.

Rock Brigade, edição 96, julho de 1994
              "A cow called floyd" traz 16 canções de autoria própria, com letras em inglês muito ruins. A interpretação de Vladimir Korg segue o mesmo mau caminho das letras, em pouco tempo o álbum de 50 minutos torna-se torturante, mas vale a audição se você é fã das bandas anteriores do membros, ou gosta de procurar ouro encravado em meio à canções enfadonhas. Eu, que gosto de garimpar nos discos, procurei e não achei, fica até difícil destacar um som agradável. A execução da banda até que vai, mas os arranjos cansativos somados às letras fracas tornam penosa a tarefa de ouvir o álbum até o fim, quando você vê que no final te aguarda uma canção chamada "Marciannas '94" a vontade é de ejetar o disco. "My girl is a zombie", "Let the world go round", "Going to Disney" e a canção que dá título ao álbum são péssimas.

               O álbum foi lançado em LP em 1993 pela Cogumelo Records e ganhou uma edição em CD no ano seguinte. "A cow called floyd" faz parte dos "alienígenas da Cogumelo", fase em que o lendário selo mineiro começou a investir em bandas e projetos distantes do heavy/death/thrash metal que representam a "época de ouro" da gravadora e loja de discos mais importante do som extremo brasileiro. Ainda sobre o disco, salva-se o projeto gráfico caprichado com destaque para a capa que rouba a vaca do disco "Atom heart mother" do Pink Floyd, para inseri-la num campo psicodélico que não reflete o som do único registro do Junkie Jesus Freud Project.

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Projeto Peixe Morto "Metrofire" (Terceiro Mundo, 2001)


            Bastam os primeiros segundos da canção "Tim Maia", que abre "Metrofire", para matar a charada: por trás do Projeto Peixe Morto estão integrantes do Dead Fish.

      "Metrofire" é mais experimental do que os discos do quinteto capixaba, mas tem características que rapidamente identificam as duas bandas, a voz e interpretação de Rodrigo, aqui sob o pseudônimo Rubão, e a bateria veloz de Nô, ou Led Noronha.

            Algumas letras são narrações do cotidiano do Dead Fish no começo de milênio, vale até observar no tempo em que os rapazes tiveram para produzir o disco do Projeto Peixe Morto, afinal só em 2001 o Dead Fish chegou a fazer 100 shows pelo Brasil, uma marca histórica para uma banda totalmente independente. Assim, "Carta de Goldmund a Narciso" descreve situações da banda em turnê, "Tim Maia" rouba versos de canções do rei do soul brasileiro adaptados ao hardcore rápido e nervoso, nenhuma música passa do primeiro minuto. As letras não se preocupam com métrica ou rimas, os versos niilistas correm livres assim como os temas: consumo, "Miojo"; religião, "Novo mártir... na cruz"; exploração, "Trajetória"; arrependimento, "O soco racional"; cerveja, "Another beer", a única com letra em inglês.

             Lançado pelo próprio selo Terceiro Mundo Produções Fonográficas, o único álbum do Projeto Peixe Morto teve repercussão restrita aos fãs e pessoas que acompanham o Dead Fish, não foi relançado e não faz parte da discografia do grupo de hardcore mais conhecido nacionalmente. O projeto gráfico traz quase todas as letras - com exceção para as canções "Atenção" e "Atenção (Versão II)" que têm letra composta basicamente por palavrões (serão direcionados a alguém?) - e fotos de estações de metrô de São Paulo em chamas. Por sinal, no álbum há muitas referências ao transporte público de sub-solo da capital paulistana.

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Elma (EP - Amplitude, 2006)


             O quinteto paulistano Elma é uma das bandas mais estranhas, curiosas e interessantes criadas no Brasil. O som é pesado e cheio de guitarras, são três integrantes empunhando as seis cordas. Instrumental e todo quebrado, o Elma já chamaria a atenção do ouvinte interessado.

                      São 4 canções densas em menos de 10 minutos, é possível ver ecos de Melvins, Helmet e outras referências que surgem em meio a riffs que aproximam o Elma de um som metal experimental sem precedentes do Brasil. Algo como post rock a serviço do peso e da esquisitice. As canções são emendadas e mal dá para perceber a mudança de faixas.

                O EP foi lançado pelo selo paulistano Amplitude, casa de bandas e projetos experimentais, infelizmente é um tipo de trabalho voltado para um público muito restrito. A parte gráfica é excelente, a capa no formato digipack traz o nome da banda recortado sob o fundo cinza do encarte com ilustrações de Ana Starling que combinam bem com a quebradeira sonora. Altamente recomendável!

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