sexta-feira, 28 de junho de 2013

Yoñlu (Allegro Discos, 2007)


             Yoñlu é Vinícius Gageiro Marques um jovem de Porto Alegre/RS com incrível talento para composições. Este é seu primeiro e único disco.

               A história de Vínícius foi bastante explorada. O adolescente, nascido em 1990, sofria de depressão e estava em internação domiciliar, pois havia atentado à própria vida. Um dia forjou uma história de que faria um churrasco em casa e convidaria amigos. Seus pais acharam melhor deixá-lo sozinho para preparar a festa, que não teve convidados. Num fórum da internet confidenciou para "amigos" que buscava a melhor forma de cometer suicídio, teve como resposta: intoxicação por monóxido de carbono.

             Vinícius levou uma churrasqueira para o banheiro, deixou o carvão queimar até morrer asfixiado em meio à fumaça. Isto aconteceu em 26 de julho 2006, ele tinha 16 anos. O caso foi bastante comentado na mídia a partir do ângulo dos suicidas que receberam estímulos na rede mundial de computadores.

         O disco surgiu a partir das gravações demo encontradas pelo seu pai. Tudo foi composto e gravado por Yoñlu no seu quarto. Além de um talento para composições e de dominar vários instrumentos, é notável o controle do garoto para softwares de gravação e o cuidados com os arranjos. As influências são diversas, do Indie Rock à bossa nova passando pelo Hip Hop, nomes como Vitor Ramil, Radiohead e Elliott Smith estão entre as referências.

              O álbum que leva apenas o nome Yoñlu tem 23 canções em 55 minutos. São músicas melancólicas cheias de violões e piano, as letras são angustiadas e todas em inglês, com exceção de "Mecânica celeste aplicada". Algumas muito boas são "Humiliation" e "Open up", outros destaques são os arranjos de piano nas instrumentais "No future", "Lampião" e "Valsa", e a bossa indie lo-fi de "I know what it's like". "Deskjet remix" tem a participação de Sobrepulse, um DJ escocês que mantinha contato virtual com a obra de Yoñlu. No final de "Tiger" surge o sampler de um discurso inflamado de um jovem Caetano Veloso no festival da canção.
         
             O projeto gráfico é bastante completo, traz fotos e ilustrações de Vinícius, letras de onze canções, texto de apresentação de Juarez Fonseca e depoimentos recolhidos de Arthur de Faria, Nico Nicolaiewski, Cláudio Levitan e outros. Lançado pelo selo goiano Allegro Discos, o disco teve uma boa repercussão, mas um fato levaria o disco a ter maior reconhecimento. O selo novaiorquino Luaka Bop, propriedade de David Byrne, especializada em redescobertas da música do mundo e que já privilegiou artistas brasileiros como Tom Zé e, mais recentemente, Tim Maia, se interessou pelo trabalho de Yoñlu e fez um novo lançamento do trabalho do compositor gaúcho. Agora com melhor tratamento, composições que ficaram de fora do álbum Yoñlu ganharam o disco "A Society in which no tear is shed is inconceavably medíocre" (Uma Sociedade na qual nenhuma lágrima é derramada é inconcebivelmente medíocre), lançado em CD e com outra capa, por sinal bem melhor que edição brasileira da bela obra póstuma de Yoñlu.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Wry "Heart Experience" (Tamborete Entertainment, 2000)



           O quarteto Wry foi formado em 1993 na cidade de Sorocaba/SP com o nome de Piso Sonoro. No ano seguinte assumiram o nome que os tornou conhecidos no underground nacional. Durante a década de 90 o Wry foi uma das bandas mais promissoras do cenário independente, participaram de festivais, era nome facilmente encontrado em fanzines e publicações que tinham como objetivo mostrar o que acontecia nos palcos menos concorridos pela grande mídia.

         "Heart Experience" é o segundo disco da banda. Tem uma produção mais apurada do que o primeiro, "Direct" (1998), ainda que sempre falte o peso ao som guitar-glam-punk. O álbum traz 14 canções em 58 minutos, com direito a alguns 'hits', como as excelentes "77:00" e "The new radio station no.1". "Jesus Beggar" ganhou vídeo clipe. Outras boas são o punk indie "You know why" e "man in black", ótimos arranjos de guitarra e bateria, respectivamente. De bônus ressurgem "That's me on the corner" em versão acústica e uma versão mais curta para "The new radio station no.1".


Bizz, edição 187, fevereiro de 2001
          Em 2001, o Wry organizou o festival Circadélica, que reuniu mais de 4 mil pessoas, e conseguiu a grana necessária para realizar um velho sonho dos rapazes, pagar as passagens e se mudar de mala e cuia para tentar a sorte da banda em Londres. E assim o fizeram, pouco antes se apresentaram no programa Musikaos, exibido pela TV Cultura, no qual Mario Bross, vocalista e guitarrista, mostrou insatisfação com as esperanças da banda por aqui "não queremos dividir camarim com o Tihuana, e sim com outras bandas", disse na entrevista. Anos antes o Wry abriu um show do Jota Quest e conseguiu cooptar "algumas fãs" do pop de rádio para o indie guitar. Por sinal, o Wry teve um fã clube muito ativo no Brasil, mesmo após a mudança para a Inglaterra.  




        Lançado originalmente pelo selo carioca Tamborete Entertainment, "Heart experience" recebeu uma edição posterior do selo Monstro Discos. O projeto gráfico é bastante caprichado, todo colorido, com bastante fotos e letras das canções, além de uma capa opcional. No final da década passada o quarteto voltou de Londres e encerrou atividades depois de 20 anos batalhando no underground.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

V.A. "Rock Garagem vol. 1" (Independente - LP,1984/Antidoto - CD, 1999)


        Primeira coletânea de bandas de rock de Porto Alegre. Lançado de forma independente, mostra o cenário diverso das bandas selecionadas. 10 nomes que passeiam entre blues, heavy metal, new wave, punk rock e outros estilos.

   "Rock Garagem Vol.1" abre com uma das mais emblemáticas bandas do rock porto-alegrense do começo dos anos 80, o Taranatiriça com a canção "Rockinho". Segue com o new wave/pós-punk do Urubu Rei e a esquisitona "Nega" e o rock do Garotos da Rua em "Levaram ele". Moreirinha e Seus Suspiram Blues fazem as escalas tradicionais de blues em "Expresso do blues".

     Curiosamente o disco traz uma grande quantidade de bandas de heavy metal, são 4, algumas tornaram-se clássicas como o Leviaethan e Astaroth, as outras são Frutos da Crise e Valhala. Fecha o disco o punk rock do Replicantes com "Princípio do nada".

    A coletânea teve várias tiragens com excelente repercussão e vendas, até mesmo alçou algumas bandas para contratos com gravadoras de maior porte. Em 1999 "Rock Gargem vol. 1" foi relançado em CD pelo selo Antidoto.

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terça-feira, 18 de junho de 2013

Voluntários da Pátria (Baratos Afins, 1984)


          O quinteto paulistano Voluntários da Pátria foi a primeira banda brasileira com uma proposta estética e sonora representante do pós-punk. Formado em São Paulo/SP em 1982 por Nazi - com Z mesmo - (vocais), Thomas Pappon (bateria) Ricardo Gaspa (baixo) e os guitarristas Miguel Barella e Giuseppe Frippi, deixaram apenas um registro, este LP de 8 canções em 24 minutos.

        Apesar da curta trajetória da banda, que logo daria espaço a projetos individuais e novas bandas, Nazi e Gaspa se dedicariam ao Ira!, Thomas montou o Fellini e o Smack, Miguel e Giuseppe com o Alvos Móveis, o Voluntários da Pátria teve uma boa repercussão na capital e foi banda precursora no estilo, tendo se apresentado em todos os palcos do underground paulistano, tais como Carbono 14, Madama Satã, Napalm e Lira Paulistana.

       O Lado A abre com uma canção de título provocativo "O homem que eu amo", segue com o "Iô-iô" de versos niilistas e sarcásticos, como "Meu iô-iô não quer subir/Vou reclamar na coca-cola". "Cadê o socialismo?" foi uma boa provocação para aqueles anos de abertura política,não é por acaso que a canção fora interditada para execução pública. O disco ainda traz as instrumentais "Marcha" e "Nazi über alles". "Verdades e mentiras" tem a cara do pós-punk paulistano, umas das melhores do disco.

       O Voluntários da Pátria tentou algumas voltas durante a década de 80, com outras formações que reuniram mais uma turma de figuras conhecidas do rock paulistano, tais como Sandra Coutinho (Mercenárias), Guilherme Isnard (Zero), Edson X (Gueto), Maurício (Ultraje a Rigor) Kuki Stolarski e Akira S.

         Gravado no estúdio paulistano Mosh, o álbum foi o 11º lançamento do selo paulistano Baratos Afins, recebeu reedição em CD em 1996 com o acréscimo de 7 faixas bônus, incluindo duas inéditas. Ainda se encontra em catálogo em pode ser adquirido pelo site do selo.

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Egisto Ophodge "Máquina de distruir dinheiro" (Purnada Y Pranada, 1994)


             Após o primeiro fim do Colarinhos Caóticos e do efêmero projeto Elektra, com Edu K, o guitarrista a arranjador anárquico Egisto Dal Santo, aqui sob o pseudônimo Ophodge, lançou seu primeiro disco solo. Uma coleção de maluquices divididas em 16 canções que procuram algum rumo, às vezes encontram.

          A seu favor Egisto pode afirmar que o trabalho de concepção do álbum foi idealizado por ele próprio, das composições a gravação de todos os instrumentos. A parte musical é mais importante do que as letras, isto vale até para as três regravações, "Insensatez" de Tom Jobim, "Eu sei que vou te amar" de Baden Powell e Vinícius de Moraes e "Era menino" de Beto Guedes.
Bizz, edição 112, novembro de 1994

           Provavelmente, as letras não têm intenção de comunicar nada a ninguém, o que garante  títulos tão abstratos quanto "D" e "X". Trata-se de um disco de um multiinstrumentista que na verdade é mais guitarrista do que qualquer coisa. A quantidade de violões usados e os constantes solos mostram que Egisto é guitarrista de mãos cheias. Destaque para a instrumental "Profissional da Folharada".

          "Máquina de distruir dinheiro" tem seus bons momentos, como a balada "Vacilo", "Penso" e "Não vai tocar", estas duas típicas canções não gravadas pelo Colarinhos Caóticos.

            Lançado por conta própria, pelo selo Purnada Y Pranada, o álbum teve repercussão apenas local, é pouco conhecido fora do Rio Grande do Sul. O projeto gráfico é bastante zoado e sujo, ainda que traga informações necessárias como letras e ficha técnica, destaque para frases da contra capa como "Canções com sangue" e "Ouvir num volume alucinante - warning: quem copiar vai se...". 

           Outro detalhe no mínimo curioso fica para o título, como a capa e o projeto gráfico também são autorias de Egisto, podemos afirmar que a culpa pelo erro na grafia que transformou Destruir em Distruir é de responsabilidade do próprio Egisto Ophodge. O título só aparece errado na capa e encarte, pois na lombada do CD, que não foi escrita por Egisto, a grafia surge corretamente. "Máquina de distruir dinheiro" é um álbum tão irregular quanto raro, vale conferir!

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Cochabambas! "Máquinas quentes a todo vapor vol. 1" (Monstro/Migué Records, 1999)


          Único registro do duo de surf music de Florianópolis. Formado por 90, guitarra, efeitos e órgão mal tocado, e Guilherme Zimmer, bateria, este é o único disco do Cochabambas!, um compacto de apenas 10 minutos com 4 canções próprias de surf music instrumental tradicional.

          O Lado A abre com "O triste fim de Josefel Zanatas" e mostra um certo peso na surf music, mas o que vem depois com "Hajii" e no lado B, com "Fuca bala" e "Infernão" parece saído de compactos de surf music dos anos 60/70

          Lançado numa parceria dos selos Migué Records e Monstro Discos, "Máquinas quentes a todo vapor vol. 1" não ganhou reedição em nenhum outro formato, e nem mesmo um volume 2. O projeto gráfico é simples e traz uma boa capa, daquelas que fãs de surf music batem o olho e já sacam do que se trata. O disco teve baixa repercussão, mas logo saiu do catálogo da Monstro Discos.

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quinta-feira, 13 de junho de 2013

V.A. "Fun, milk & destroy!" (Devil Discos, 1994)




Bizz, edição 104, março de 1994
              Em 1993 ocorreu na cidade de Campinas/SP a primeira edição do Juntatribo, um festival de bandas independentes que reuniu nomes do underground nacional que pareciam existir apenas isoladamente, cada um em sua cidade. O Juntatribo mostrou que havia um cenário alternativo que sobrevivia longe da grande mídia e dos olhos grandes das gravadoras, era alimentado pela correspondência de cartas, fanzines e demotapes. Ia além ao apresentar novas bandas, em sua grande parte sem nenhum comprometimento com língua portuguesa, estética sonora ou qualquer modismo. A poeria levantada pelo Juntatribo pode ter mudado de cor, talvez não suje mais ninguém, mas muito do que veio depois das três noites daquele final de semana de agosto de 1993 persistente até os dias de hoje.

            "Fun, milk & destroy!" traz um pouco das bandas que participaram do Juntatribo, mas não se trata de um compilado, a relação da coletânea com o festival vem mostrar que nos começo dos 90's o interior de São Paulo e a capital estavam pegando fogo.

             O disco traz 5 bandas de punk rock e hardcore em canções curtas e com letras em inglês, todas têm quatro canções, com exceção dos campineiros do Muzzarelas e Lethal Charge com três cada. O Muzzarelas faz aquilo que foi sua característica eterna, hardcore tipo diversão garantida. O Lethal Charge tem bastante peso, mais crossover, já apontava um caminho que a banda seguiria nos próximos discos, redução de velocidade e flerte com o metal/industrial.

            O Intense Matter of Living (IML) é diferente, tem um triângulo em meio ao punk/hc, mostra até um certo groove em "Structural man" e "Real friends". Um destaque é o hardcore rápido e preciso do Kangaroos in Tilt, belas guitarras e uma das melhores introduções do hc brasileiro em "(a)politic", as outras também são 'docaralho'! Por fim, No Violence com uma pegada funk em "Activate", mostram bastante técnica.

            A seleção das bandas ficou a cargo de João Gordo e do produtor R.H. Jackson, lançado apenas em vinil pelo selo paulistano Devil Discos, "Fun, milk & destroy!" não recebeu reedições. O projeto gráfico é uma arte, nem sempre facilita a leitura das bandas e títulos das canções, autoria de Priscila Farias, que na época era editora da revista Animal, provavelmente a publicação de quadrinhos mais legal que o Brasil teve até os dias de hoje.

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Krápulas "Dance after dead" (Bloody Records, 1993)



          Se Curitiba é a capital do psychobilly no Brasil, este título deve muito ao Krápulas. A banda formada em 1989 passou por muitas mudanças de formação e esteticamente, adicionando peso e velocidade ao som psychobilly nos discos que seguiram o EP "Dance after dead", seu primeiro registro em disco.

          São 6 canções próprias com letras em português num disco de 7 polegadas. As canções seguem a linha do psychobilly brasleiro, uma mistura de rockabilly acelerado e surf music com letras que não fogem do estilo 'saico', de temas como crimes, casos de amor macabros, serial killers e outras maldades.

         "Dance after dead" foi um 13 compactos lançado pelo selo curitibano Bloody Records em 1993, todos com tiragem de mil unidades, no mesmo pacote havia mais um banda de psychobilly, o não menos importante e pioneiro Missionários. O projeto gráfico é simples, todo em preto e branco, contém encarte sem letras. 

        O EP de 10 minutos teve uma boa repercussão, ainda que local e com público bastante segmentado, nos anos seguintes o Krápulas fez algumas alterações na grafia de seu nome e chegou a assinar contrato com uma gravadora maior, a Prize Records.

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Psychic Possessor "Nós somos a América do Sul" (Cogumelo Records, 1989)



            Formado em 1987 o Psychic Possessor lançou seu primeiro disco "Toxin' Diffusion" em 1988, com um som que se aproximava do thrash/death metal. No segundo disco, após mudanças na formação que deixaram apenas o guitarrista Zé Flávio da formação inicial, "Nós somos a América do Sul", o som enveredou para o hardcore, num dos raros casos de bandas que começam com uma proposta crossover e depois caem no punk/hc. Entretanto, este foi o último registro do quarteto de Santos/SP.

           O álbum é nervoso, traz 17 canções em pouco mais de meia hora, poucas ultrapassam a marca dos 2 minutos. A escola é hardcore old school, de Circle Jerks, DRI e Germs, e de nomes brasileiros contemporâneos, alguns na atividade até hoje como Ação Direta, DFC e ARD. Os riffs da guitarra pesados de Zé Flávio somados à bateria rápida de Maurício "Boka", que pouco depois deste disco fez teste para o posto vago de baterista do Ratos de Porão, no qual permanece até hoje, e os vocais raivosos de Marcio "Nhonho" (falecido em 2013) funcionam perfeitamente para as letras politicas "Vote nulo" e "Governo Quércia", questões ambientais pré-Eco 92, "SOS amazônia" e "Cubatão" e serviço militar "Disciplina militar". Completa a formação do Psychic Possessor o baixista Fabrício, que depois se dedicaria ao Garage Fuzz, no qual permanece como baixista por mais de 20 anos. "Capitalismo" foi resgatada pelo Ratos de Porão no disco de covers "Feijoada Acidente? - Brasil", de 1995.

Psychic Possessor no próprio estúdio (autor desconhecido) 

        Os dois registros do Psychic Possessor foram lançados pelo selo mineiro Cogumelo Records. "Nós somos a América do Sul" foi produzido por Gaughin, o responsável pela maioria das produções do selo e um dos primeiros profissionais especializados em gravar bandas de heavy metal e suas vertentes mais extremas. O projeto gráfico de Jimmy Leroy é bem produzido e fartamente ilustrado, a começar pela boa capa, traz todas as letras, ficha técnica e fotos. O álbum recebeu reedição em CD em 2002 e pode ser encontrado no site da Cogumelo Records. "Nós somos a América do Sul" é um dos primeiros clássicos do hardcore brasileiro.

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domingo, 9 de junho de 2013

V.A. "Cidade Maravilhosa?" (Crepúsculo Records, 1997)


  Um compacto com 4 bandas, 12 músicas, três para cada, em 18 minutos, cabe? Sim, e aqui está o Split em quatro mãos “Cidade Maravilhosa” que capturou as bandas punks cariocas Protesto Suburbano, Atentado Violento, M.P.O. e Sub Atitude. Um disco que registra um cenário punk pouco conhecido nacionalmente e que aqui traz bandas em sua fase inicial.

 O som é punk rock e hardcore rápido com letras que falam de violência e outros temas sociais urbanos, as músicas são curtas e mal passam do primeiro minuto. Os destaques ficam para o peso crust/grind do Atentado Violento e para as boas letras do Protesto Suburbano.  

 O projeto gráfico é todo feito à mão em preto e branco, numa característica bem própria da arte punk nacional. Traz ilustrações, letras, contatos e ficha técnica. “Cidade Maravilhosa?” teve uma repercussão razoável, afinal este tipo de produção não alcança as mídias especializadas, que acabam até mesmo ignorando discos independentes de bandas punks recém criadas. Das quatro bandas deste disco, apenas o Protesto Suburbano deu continuidade e lançou discos posteriormente.


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sábado, 8 de junho de 2013

Lado 2 Estéreo "Sambaque torto e outros ritmos" (Independente, 2002)


            De Teresina/PI  vem a dupla Josh S. e Julliano Lima, que formam o Lado 2 Estéreo. "Sambaque torto e outros ritmos" é seu segundo disco. Um trabalho, que como o titulo induz, aproxima o samba de outros ritmos. Talvez não seja muito samba e por isso foi rebatizado de 'sambaque' e assim conseguir dar espaço para outras influências, que vão de Jorge Ben ao Napalm Death, do pandeiro aos blast beats e metrancas.

             O álbum traz 12 canções próprias, todas de autoria de Josh S., em pouco mais de 35 minutos - na verdade, são 11 músicas, mas uma sem título se esconde como bônus após o final de "Liberation samba ganja". Pela quantidade de participações quase não dá para afirmar que é um disco de duas pessoas, o que abre espaço para a dupla trabalhar com programações eletrônicas e instrumentos orgânicos. A parte percussiva é muito pesquisada e as letras pouco importam, raramente ultrapassam duas linhas de texto, também nada dizem. As guitarras são um destaque e garantem os bons momentos do disco, como em "Pode tremer", "El mono funk" e "Samba de Ben", esta a mais 'samba', assim como "Sambaque torto".

            "Sambaque torto e outros ritmos" foi lançado de forma independente pela própria banda. O projeto gráfico é bastante completo, com letras (?), ficha técnica, fotos e uma apresentação da dupla e do trabalho. O disco teve uma boa repercussão, afinal o Lado 2 Estéreo caiu na estrada após o lançamento e conseguiu levar seu trabalho para muitos estados.

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Messias "Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me" (Digitalia, 2009)


            Após 17 anos dedicados a uma das principais guitar bands brasileira, Messias Bandeira, vocalista do brincando de deus (assim em minúsculas mesmo) lançou seu primeiro trabalho solo. Um álbum esmerado, produção absolutamente atípica no Brasil, até mesmo para os padrões da grande indústria fonográfica. Trata-se de um disco triplo, no qual cada um assume como nome uma parte do título "Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me".

                 Ao todo, somam-se 32 canções em 94 minutos. O disco contou com a participação de mais de 20 pessoas na execução das canções, o projeto ousado levou muito tempo para ser finalizado.

                 O disco 1, "Escrever-me", abre com "Resilience", uma amostra de todo o conteúdo sonoro do álbum, épico com arranjos de cordas de Pedro Augusto e Jorge Solovera e refrão marcante. Segue com outra das boas canções "Unread books", apresenta o lado acústico do disco, com uma cítara esperta entre os versos. A vinheta "Algoritmo" abre a melancólica "Offbeat", daquelas certas aos órfãos do brincando de deus, linda. "The road to us" é uma balada melancólica, tem um solo de trompete de Alex Porchat rasgando o arranjo triste. "Avenida contorno", assim como o nome indica, tem letra em português, gravada apenas por Messias e André T., a ótima letra descreve uma noite de insônia em Salvador, bem longe da alegria habitual descrita noutras canções sobre a capital baiana. "Run to risk" também comandada por Messias e André é bastante etérea, contrasta com "Who i should be" balada tipo rock inglês de refrãozão. A canção título do disco 1, "Escrever-me", é uma vinheta noise feita por Messias, assim como acontece nas duas outras canções título. 

            Pode-se afirmar que o disco 2, "Envelhecer-me", é o melhor dos três. Começa reproduzindo parte da melancolia já apresentada em "Escrever-me", com "The machines are my family", perfeito guitar sound, assim como "Symetry". "Books are amulets" parece uma canção de banda pop inglesa, o mesmo vale para a "Daily goodbyes" bem anos 80 e melancólica. "Orbiting you" lembra Teenage Fanclub, das melhores com o bonito arranjo de teclado de André T. O disco 2 fecha lindamente com "They drug me everyday", provavelmente a mais bela do disco todo, o arranjo com piano de André T., trompete de Joatan Nascimento, cello de Kayami Freitas e baixo acústico de Alexandre Montenegro, emocionam nos 7 minutos da canção. Quase dá para desistir de chegar ao álbum 3 depois desta. 

                  Por fim, o disco 3, "Esquecer-me", o mais etéreo e eletrônico dos três, também é o que traz mais vinhetas, 4. Abre com "God, if you can hear me" e melodia guitar. "When life is not enough" traz Messias acompanhado apenas de seu violão. "No hay banda" trai o título e apresenta a melhor canção do disco 3, com banda e acordeon. "A última tarde de um império em chamas" fecha o disco triplo com um noise guitarra das mãos de Messias.

             "Escrever-me, envelhecer-me, esquecer-me" se fosse pinçado de seus melhores momentos seria o melhor disco do brincando de deus, sendo um disco solo do Messias, consegue ser o disco mais bem produzido de uma guitar band. Mas não é somente guitar, o disco varia outras nuances e consegue ser vasto, ainda que permeie sempre o território dos sons ruidosos e melodiosos. É um trabalho triste, pode ser até mesmo autobiográfico.

                   O álbum foi lançado em CD pelo selo baiano Digitalia, numa tiragem de mil cópias. O projeto gráfico de Messias, com ilustrações de Ricard Sans, é caprichadíssimo e traz um encarte de 32 páginas com todas as letras e ficha técnica das gravações, não traz foto. O álbum pode ser adquirido no site do Messias.

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