quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Crac "Móbraba" (Independente, 1998)


                      
                       O primeiro e único disco da veterana banda de Salvador, formada em 1990, demorou 8 anos para ser lançado. "Móbraba" tem 10 canções que capturam uma banda cheia de peso e funk com espaços para experimentos e arranjos criativos, pelos vocais de Nancy escapam alguns exageros, mas também constroem a identidade da banda e das letras em português.

                      "Móbraba" abre com a única regravação do álbum, "Pesadelo" da Patife Band, uma referência forte no trabalho da banda. Segue com faixas mais pesadas, "A chuva" e "Na sopa", esta ganhou videoclipe, e outras num fusion pesado nas quais a banda se dá muito bem, "Somos lerdos" e no groove pesado de "Daquele cigarro", provavelmente a melhor do disco, curiosamente esta canção foi mixada no dia da morte de Tim Maia, que recebeu agradecimento na página do encarte. Há também samples de Walter Smetak.

                     O disco lançado de forma independente, com o apoio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura da Bahia, tem um belo projeto gráfico de muitas páginas, todas as letras, ficha técnica e boas fotos, com exceção das pequenas fotos de péssima definição dos integrantes, a capa com fotos em close de uma jaca são de Iano Andrade. Há também um resumo das várias formações do Crac ao longo de seus 8 anos. Pouco tempo após o lançamento de "Móbraba" o grupo encerrou atividades.

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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pullovers "Riding Lessons" (Sebo 264, 2002)


O segundo disco do quarteto paulistano Pullovers tem 16 canções próprias barulhentas e melodiosas, como uma guitar band deve soar. A produção é mais apurada se comparada ao primeiro registro, “Can’t play covers” (Ordinary, 2000), ainda assim deixa passar problemas de equalização, se uma característica marcante das guitar bands é ‘enterrar’ os vocais com camadas de guitarra e viradas, aqui temos um exemplo oposto, os vocais são altos e em primeiro plano.

O álbum abre com a vinheta “Riding or running” e segue com um ‘hit’ da banda, “Modern times girl”, cantada em três vozes por Luiz, Ana Carolina e Mariane. Há canções muito boas, vale destacar a melancolia de “Too fat for you” e “Serenade”, esta com um arranjo slide da guitarra de Mariane que termina quebrando tudo! “She’s 30 and so...” e “Tender things” são outros bons exemplos. O álbum encerra com brincadeiras eletrônicas criadas mais para aproveitar o tempo restante do álbum. Ao final surge a impressão de que o disco é um tanto repetitivo, afinal, mesmo que sejam canções curtas, são 16 delas, em 37 minutos, a repetição é quase inevitável.

“Riding Lessons” foi lançado em CD com o apoio do selo Sebo 264 e produzido pela  banda. O projeto gráfico traz uma bela capa com foto da banda sem apresentação muito menos título, boa ousadia, e encarte com todas as letras, traz ficha técnica e mais fotos de cavalo, além do catálogo de CDs lançados e distribuídos pelo Sebo 264.

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domingo, 18 de novembro de 2012

V.A. "Brasil Compacto" (Rockit!, 1996)


“Brasil Compacto” reúne 12 bandas em 22 canções, com exceção do Tenente Mostarda e de Fausto Fawcett que têm apenas uma composição cada. O álbum traz músicas inéditas de todos e tenta cobrir uma diversidade estilos dentro do rock produzido no Brasil na época. O que transparece no álbum é uma brasilidade de linguagens percussivas, grooves que alternam guitarras pesadas, vocais rap/embolados e letras sobre o cotidiano e abstrações.

Bizz, edição 136, novembro de 1996
Como quase toda coletânea, “Brasil Compacto” tem bons e maus momentos, os mais representativos surgem logo no início do álbum com o Eddie em “Falta de sol” e “Quando a maré encher”, primeira versão do hit regravado pela Nação Zumbi em “Rádio S.Amb.A,” (2000) e Cássia Eller, no “Acústico MTV” (2001). Os alagoanos do Living in the Shit soam bem no reggae-mangue “Quentura”. A veterana banda de Egisto Dal Santo, Colarinhos Caóticos, aparece distante da anarquia sonora de seus primeiros anos. O indie-caipira do Motorcycle Mama, depois apenas Motormama, é uma boa surpresa com “Nazitrekkers” e na bela “Malária a go-go”. O trio Maria Bacana é um destaque, punk rock melódico em português com letras sentimentais em “Primavera” e “Caroline”, a boa recepção que as canções tiveram fez do Maria Bacana a única banda da coletânea a lançar um disco pela Rockit!. Do interior de Sergipe vem o Lacertae, apelidados de Beck do nordeste em matéria da revista Showbizz, a banda mostra uma inventividade surpreendente em “100 km com um sapato”, não precisava nem de letra, pois a interpretação deixa a desejar. O paulista do Tiroteio carregam percussão de samba e vocais ragga de Sérgio Boneca em “Toc toc toc”, contribuem para a brasilidade do álbum. O General Junkie se dá bem no rock cheio de guitarras em “Convulsão” e no sambinha “O amargo”, boas letras e interpretações.

Das bandas que não se deram bem, é difícil deixar de citar o rap metal carioca Os Devas, a pior letra do disco em “Virgem erótica”, a música produzida num teclado também contribuiu no péssimo resultado. Os pernambucanos do Paulo Francis Vai pro Céu também merecem a menção nada elogiosa, “Esporte urbano” tem letra e interpretação muito ruins, um desperdício do arranjo de cordas, que caiu bem na canção, mas não a salvou do resultado fraco, curiosamente a banda se deu bem no tributo ao Reginaldo Rossi, mas aqui não perdoam os ouvidos. Por fim, Tenente Mostarda e Fausto Fawcett, a primeira faz um punk rock sem novidade nenhuma e uma letra que justifica a existência da banda, i don’t care. Já Fausto Fawcett mostrou que continua a fazer a mesma coisa que lhe rendeu um hit, popularidade em três discos e algumas polêmicas com suas loiras, letras tal como crônicas urbanas narradas sob uma mesma batida eletrônica, refrão pegajoso e irritante, entrou no disco porque sobraram quatro minutos.

“Brasil Compacto” foi lançado em CD pelo selo carioca Rockit!, propriedade de Dado Villa-Lobos que produziu o álbum junto de Sergio Espírito Santo. O projeto gráfico de Barrão e Fernanda Villa-Lobos, que assinam os encartes de quase todos os discos do selo, é completo e caprichado, traz fotos e informações de todas as bandas, não traz letras. A coletânea é um registro importante de bandas que em sua maioria não chegaram a gravar disco.

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Nei Lisboa "Relógios de Sol" (Antídoto, 2003)


O 8º disco de Nei Lisboa traz 11 canções inéditas compostas por Nei. Cheio de baladas de amor e boas letras, o álbum também traz bons arranjos e a interpretação impecável da bela voz de Nei Lisboa, o melhor interprete de suas próprias canções.

Os destaques de “Relógios do Sol” ficam para o lirismo romântico de “Vai chover” e da faixa título. “Cine Avenida” e “Isso são horas” quebram o ritmo de arranjos delicados do disco para sons mais dançantes, esta também tem uma letra cheia de malandragem noturna e libidinosa. “Pra te lembrar” é muito bonita, provavelmente uma das melhores letras de Nei Lisboa, também regravada por Caetano Veloso na trilha sonora do filme "Meu tio matou um cara", de Jorge Furtado.
“Relógios do Sol” foi lançado em CD pelo selo gaúcho Antídoto e teve uma boa repercussão, ainda que local. O projeto gráfico é muito bem cuidado com fotos dos vitrais da artista plástica Lucia Koch, letras e ficha técnica além da opção de duas capas.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

V.A. "Devil Party" (Devil Discos, 1989)



       
              "Devil Party" é considerada a primeira coletânea de psychobilly lançada no Brasil. Reúne três bandas paulistas (Kães Vadius, Kryptonitas e K-Billy's) e uma carioca (A Grande Trepada), cada uma com três músicas.

               O Lado A abre com o K-Billy's, suas canções trazem os temas característicos do psychobilly - morte, violência, aditivos... - a voz de Milton Monstro deixou o 'hit' do primórdios do estilo, "I hate you, baby". O mesmo lado segue com o Kryptonitas, mais influenciados pelo rockabilly nas boas "Cidadão comum" e "O perfeito".

               O Lado B traz dois patrimônios do psychobilly nacional e que permanecem em atividade ininterrupta: A Grande Trepada (ou Big Trep) e Kães Vadius, esta é a única banda da coletânea que já vinha de experiência em discos, com os clássicos "Psychodemia" (1987) e "Delirium Tremens" (1988). É o Kães Vadius que abre este lado que traz as ótimas "Dead" e "Canibalismo". A Grande Trepada fecha o álbum com seu psychobilly com toques de rockabilly e surf music em "Do-Ré-Mi-Fá baby" e "Surf Drácula".

              "Devil Party" foi lançado pelo selo paulistano Devil Discos e gravado no estúdio Big Bang por Marco Mattoli, Marcelo Galbetti e Miguel Lopez. O projeto gráfico é completo e caprichado, traz todas as letras, fotos das bandas e ilustrações de autoria de Wilson Villa Mayor, pai do Eddie Booper Ball, baixista d'A Grande Trepada, as ilustrações da contra capa são do Hulkabilly (exceto d'A Grande Trepada), vocalista do Kães Vadius. Lançado apenas em LP o álbum teve uma boa repercussão e ajudou a unir a 'psycarada' brasileira, aguarda reedição.

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domingo, 11 de novembro de 2012

Urge (Heavy, 1992)




                Pedro Luís, antes de integrar o Boato, liderar A Parede, conduzir o carnaval-sem-fim do Monobloco e uma carreira solo, dedicou boa parte da década de 80 ao Urge. Formado em fins de 1984 por Pedro Luís (vocal/guitarra), Margot Marnada (vocal/guitarra), Sérgio Naidin (bateria) e Fabrício (baixo), o Urge se apresentou em casas noturnas do RJ e SP, gravou um disco-mix de duas músicas, filmou dois raros vídeo-clipes e um documentário, além de ter sua "Idiotas" executada na Fluminense FM, até chegar ao primeiro e único disco.

Bizz, edição 20, março de 1987
                
                O álbum sem título traz um Urge reduzido ao trio Pedro, Sergio e Fabrício, mas conta com a participação de Margot na maioria das 19 canções, além de Dau (guitarra) e Carlos Fuchs (teclados), este assina a produção junto com Paulo Brandão. A grande parte das canções não passam de dois minutos e trazem referências que vão do punk à MPB, as letras remetem à literatura urbana com imagens de violência e caos, algo como um pós-punk carioca. Traz músicas muito boas tal como o reggae "Informação" e "Incêndio", que ganhou vídeo-clipe. O hardcore "Ruas Perigosas" - parceria de Margot, Rosane Preciosa e Janice Caiafa, esta conhecida socióloga e autora de "Punks na Cidade", literatura fundamental sobre o movimento punk no Rio de Janeiro - também tem sua versão ao contrário, "Sasogirep Saur". O punk rock "Idiotas" fecha o lado B com seu verso ode-à-realidade "... a fábrica de idiotas não pára de funcionar..."

             "Verbete" foi composta a partir da busca da palavra 'amor' em dicionários. No segundo verso de "Curioso (como que se morre?)" Margot (1963-2000) canta "...como que se morre assassinado...", triste coincidência se relacionada à sua trágica morte, o álbum também tem uma canção chamada "Gatilho". "Quem vai querer" foi regravada como homenagem por Pedro Luís e A Parede no disco "Zona de Progresso" (MP,B, 2001). A letra da excelente "Caipira" engana o ouvinte que imagina que o personagem seja o nosso conhecido matuto, ela tá mais sobre nossa bebida-patrimônio. A banda soa muito coesa, os arranjos são bastante trabalhados, principalmente nas guitarras e na percussão.

            O projeto gráfico tem foto de Guilherme Rozenbaum com Pedro Luís empunhando sua Fender Jaguar na capa, o encarte traz todas as letras, a ficha-técnica ficou na contra-capa ilustrada com a sequência da foto-capa na qual surgem Sergio e Fabrício. O disco foi lançado apenas em LP pelo selo carioca Heavy Discos, e provavelmente seja o único do selo de uma banda que não era de heavy metal, teve uma repercussão razoável, mas não o suficiente para segurar o Urge em atividade nos anos seguintes. Uma preciosidade que dificilmente será reeditada.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Instituto "Coleção Nacional" (YB?/Instituto, 2002)



O coletivo Instituto, formado pelos DJs, engenheiros de som e produtores Rica Amabis, Tejo Damasceno, Daniel Ganja Man e Rodrigo Silveira, cometeu um excelente primeiro disco em “Coleção Nacional”. O álbum traz 14 canções e quase 30 participações especiais, gravadas em vários estúdios.

“Coleção Nacional” abre com Fernandinho Beat Box sozinho na quase vinheta “Beatboxsamba”. O disco segue com a primeira boa surpresa, a parceria entre Instituto e Sabotage (1973-2003) em “Cabeça de Nêgo”, o coletivo e o rapper, que apesar da trajetória curta trouxe novas possibilidades na mistura de rap com ritmos brasileiros, repetem a parceira na arrasadora “Dama Tereza”, com a participação especial de Maurício Tagliari no cavaco e violão e Céu na voz de apoio. BNegão e Otto revezam vocais em “O dia seguinte”, contudo, a parceria entre Instituto e Z’África Brasil em ”Tabocas” trouxe melhor resultado. Fred Zero Quatro e Instituto dividem a produção de “Vou deixar os ossos”.

Revista Frente, edição 03
O Instituto construiu um disco de participações especiais para receber a produção do coletivo, assim surgem faixas quase instrumentais nas quais o destaque é a produção, isso acontece em “Na ladeira”, com o Bonsucesso Samba Clube. Em outras o coletivo deita e rola, “Solaris/Só mais um samba” (Rica Amabis e Los Sebosos Postizos/Daniel Bozio) é uma das melhores do álbum, excelente trilha. O mesmo vale para a sequência “Verdin 2/Dub do galo” (Dengue, Pupilo e Ganja Man/Lucas Moreira) e “#1” dos talentosos irmãos Ganjaman e Maurício Takara. Outros ganham espaço no disco sem a participação do Instituto, é o caso do Flu, conhecido baixista do cultuado DeFalla, que produziu “Kianca” e  “Traidores da Babilônia (Traidores Dub)”, projeto paralelo homônimo de alguns integrantes do Ultramen e Comunidade Nin-Jitsu, quase 10 minutos de dub.

O projeto gráfico traz um encarte com detalhada ficha-técnica, apresentação faixa-a-faixa e parte da história do Instituto, além de fotos de padaria e barbearia, que também ilustra a capa, autoria de Rodrigo Silveira e Márcio Simch. O álbum foi lançado pelo selo paulistano YBrazil?, de Maurício Tagliari, em parceria com o recém criado selo Instituto, teve uma excelente repercussão na mídia especializada e ao vivo.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Maria Angélica "Outsider" (Vinil Urbano, 1988)



Bizz, edição 44, março de 1989
              O primeiro disco do quinteto paulistano Maria Angélica aproxima a capital paulista do underground inglês e norte-americano da segunda metade dos anos 80, em total sintonia com as guitar bands e o shoegaze britânico. Na formação traz o jornalista da Bizz Fernando Naporano, o guitarrista-enciclopédia-do-rock e, por muito anos, lojista de discos de São Paulo Carlos Nishimiya, o, hoje, veterano baixista Lu Stopa, Victor Bock na guitarra e o finado Victor Leite na bateria. Com exceção de Naporano, os demais integrantes participaram de várias outras bandas e projetos.

            “Outsider” traz nove canções com letras em inglês e sonoridade entre o pop e o barulho. “Shame of Love” e “Shyness” soam quase como baladas rock, “Purple Thing” tem um potencial de hit. A parte noise é dominada por uma forte influência do punk rock, “Holy Mind” e “Hotel Hearts”, “Another Life” é puro punk rock inglês circa 77, Fernando Naporano canta tal como Pete Shelley. Por sinal, é do Buzzcocks a única canção regravada pelo Maria Angélica, “I Don’t Mind”. Por fim a única em português a barulhenta “Absinto-me só”.

         O álbum foi gravado num espaço de tempo recorde, foram usadas apenas 3 horas entre gravação e mixagem para finalizá-lo. Lançado pelo selo paulistano Vinil Urbano e produzido por Rollando Castello Junior, proprietário da Vinil Urbano, em parceria com a banda. O álbum teve uma repercussão positiva, agradou o público brasileiro atento as movimentações dos porões estrangeiros e de bandas de selos como Creation, Rough Trade, Factory... o que permitiu ao Maria Angélica se apresentar em várias capitais e festivais que reuniam nomes do underground brasileiro e bandas de maior apelo popular.
          
     O projeto gráfico é bem construído e caprichado, uma característica do Maria Angélica, os seus discos são muito bem trabalhados visualmente, traz fotos, letras, ficha-técnica e uma bela capa. “Outsider” existe apenas em LP e há alguns anos aguarda reedição.

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