domingo, 29 de abril de 2012

Ratos de Porão + Sepultura - 80's jam sessions "We are a fuckin' shit!: uma sensacional compilação de bandas que não existem" (Rotthenness, 2000)



             
                Só para fãs, e daqueles tipos mais estúpidos. Este disco é uma grande zoeira, reúne as ideias mais doidas do João Gordo com o apoio dos demais RDP's - Jão, Jabá, Spaghetti - mais o Sepultura - Igor, Max e Andreas - e outras intervenções em bandas que jamais existiram, muito menos foram planejadas ou ensaiadas. Como o título diz, são jam sessions ocorridas na década de 80 e que reúnem parte da loucura que foi a trajetória do Ratos de Porão, quem já viu o documentário "Guidable" e o DVD de extras pode ouvir o disco sem problemas, o filme funciona como um guia.

             O álbum foi lançado originalmente numa fita K7 em 1989, permaneceu como uma raridade até 2000 e mesmo depois de ganhar edição em CD, pelo selo Rotthenness Records (especialista em noise core, grind) não fugiu de sua característica existencial: um disco que não deve ser ouvido.

             Temos aqui 10 bandas em 12 "canções" (mais um bônus surpresa), cada faixa é uma banda e as gravações são de baixa qualidade, variam entre o horrível e o audível. O álbum abre com a Barulheiras Parkinson, a mais ativa das bandas inexistentes do disco, basicamente reúne o núcleo RDP num revezamento de instrumentos, Jão volta pra bateria e Gordo mostra seus "dotes" de baixista. O Jamais Jamel traz Gordo, Max e Igor ao vivo num lugar chamado Limbo, em 1988, numa banda de noise core que só teria público se se levasse em conta as figurinhas barulhentas da recém banda. PxDxRx é o RDP com covers de Extreme Noise Terror, Discharge e Lurkers, gravação boa! Retumbators é algo que hoje chamaríamos de one man band mais tosca dos últimos dias, ou o Gordo com um liquidificador, serviu de base para a formação do TDG, na década seguinte, dessa vez com o Pedrão a cargo do eletrodoméstico a serviço do noise.

Encarte: um guia muito importante estas horas
             O disco segue com outras "bandas", tais como Fantahuva - que parece um ensaio do Minutemen!. Mais Spalmidead, Broken Foot, Madonna's Kids (um coral para o noise!) uma gravação de "Caos" com o próprio RDP. E fecha com outra formação reunindo Sepultura e João Gordo, dessa vez denominados como J. Dingão e Seus Dingo Lindos ao vivo no Dama Xoc, com interpretações de Titãs, Dead Kennedys, Sex Pistols, Ramones e outros numa gravação muito boa, um presente para quem prestou atenção em todas as bandas e faixas.

             "We are a fuckin' shit" teve uma tiragem pequena e quase nenhuma divulgação, o eficiente projeto gráfico é da Priscila Farias, que ilustrou a fabulosa revista Animal, tocou bateria no Disk Putas e Kleiderman. O encarte traz as informações necessárias para conhecer o disco. Sem o encarte é difícil reconhecer qualquer coisa nesta zona, tem a formação das "bandas" e canções. Enfim, um disco sem nenhuma pretensão que se não fosse o relançamento da Rotthenness permaneceria como uma lendária K7 cheia de pequenas histórias esquecidas entre noites alcoolizadas, ou apenas histórias para contar, bom, na verdade ainda é isso mesmo.

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domingo, 22 de abril de 2012

Alvos Móveis (Suck My Discs, 1996)




Bizz, edição 134, setembro de 1996
            Alvos Móveis é o nome do projeto dos guitarristas paulistanos Giuseppe Lenti e Miguel Barella e este é seu primeiro disco. Os dois guitarristas têm uma trajetória extensa no underground paulistano, estiveram juntos no Voluntários da Pátria e tocaram com outros grupos e projetos. O Alvos Móveis começou em 1987 e gravou seu primeiro álbum no ano seguinte, estava nos planos de receber o acetato, o vinil, sob a chancela do selo/loja Wop Bop. Porém, a crise financeira da época não permitiu e o selo sucumbiu antes do lançamento. A estreia saiu em 1996 pelo estreante selo Suck My Discs.

           Além da dupla Giuseppe/Miguel, o disco contou com a participação do baixo de Akira S, em metade das músicas, Fábio Golfetti toca cítara em "Dança/Danza", por sinal, uma das mais belas do álbum. A produção é de Geraldo d'Arbilly, são 10 canções, todas instrumentais, nas quais a dupla desfila sua técnica sem exagero de virtuosismos, experimentam efeitos e instrumentos, a influência de Robert Fripp é constante, praticamente uma unanimidade entre todos os envolvidos na confecção deste disco. A canção "Borgo San Frediano" é a única não inédita, pois foi com esta canção que a dupla participou da coletânea de experimentos em estúdio "Rock de Autor" (Manifesto, 1991).

           O disco teve pouca repercussão na mídia e nenhum show de lançamento. O projeto gráfico é simples, contém foto dos guitarristas e ficha técnica, na capa uma imagem distorcida de uma corrida de carros. O Alvos Móveis gravou um segundo álbum, lançado pelo selo Voiceprint.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Anarchy Solid Sound "Be honest with yourself" (Tinitus, 1994)



                 O Anarchy Solid Sound (A.S.S.) surgiu em 1991, em Niterói/RJ. Era um quarteto de hardcore, mas tornou-se um trio no dia mais importante de sua existência.

Revista General, edição 08
                 Corria o ano de 1993 e com uma demo tape, de mesmo nome deste primeiro e único álbum, o ASS conseguiu um contato com Pena Schmidt, dono do selo Tinitus, que se interessou pela banda e marcou de vê-los ao vivo em São Paulo. No caminho do Rio para SP houve um atrito entre os membros e o vocalista Téo deixou a banda, que mesmo assim se apresentou e assinou o contrato com a Tinitus (isso está relatado com mais fidelidade no livro "Esporro" de Leonardo Panço).

             Entretanto, o resultado das 11 canções de "Be honest with yourself" está bem aquém das possibilidades do trio, e do suporte da gravadora. As canções são bem executadas, afinal, foram testadas ao vivo muitas vezes, mas falta punch no disco, as letras num "inglês 5ª série" não ajudam muito e a produção, à cargo da própria banda, se perdeu. Ainda assim, é o álbum importante, atípico no catálogo da Tinitus e representativo para o underground carioca.

              O projeto gráfico é péssimo, a capa é horrível, digna de encalhar no sebo, mas o encarte traz todas as letras.

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domingo, 8 de abril de 2012

V.A. "No Major Babes Volume 1" (Paradoxx/Cafeine, 1994)



               Uma coletânea muito representativa se levarmos em consideração a ebulição que acometeu o underground brasileiro na primeira metade da década de 90, momento em que o que mais interessava para as bandas era promover sua própria revolução. Longe do dinheiro e olhos das multinacionais do disco, longe das estéticas pré fabricadas e modismos comerciais, e, portanto, longe das rádios e dos grandes palcos.

               "No Major Babes Volume 1" traz 17 bandas de 5 estados e de vários estilos em comum. Todas com demo tapes embaixo do braço, algumas até carregavam um primeiro disco independente, em busca de espaços para apresentar e distribuir material. Eram nomes fáceis em fanzines, um veículo que ajudou muito a promover a revolução nos porões.

               O álbum abre com o Ratos de Porão, um nome veterano, mas que em 1994 flertava com a cena alternativa paulistana, "Videomacumba" aparece em versão diferente da registrada no disco "Just another crime...". o Gangrena Gasosa comete mais uma zoeira em "Araizé", sempre naquela incrível mistura de thrash metal e elementos de umbanda que tornaram a banda reconhecida dentre os nomes do metal brasileiro, é diversão garantida O Virna Lisi se destaca das demais, pois traz a mistura de percussão com guitarra distorcida, a cozinha segurando o peso somadas as boas letras em português, alguns meses depois bandas pernambucanas viriam com mais bagagem e tornariam destes elementos a "tábua de salvação" para a música brasileira. Clemente e Thaíde & DJ Hum se uniram para recriar o clássico "Pânico em SP", boa surpresa de um encontro que poderia ter rendido bem mais que esta canção. O Second Come, que já tinha um LP recém lançado, trouxe a inédita "Violent kiss", é inegável a capacidade do quarteto em compor belas melodias. O Dash, um expoente preguiçoso das banda cariocas, participa em disco pela primeira vez com a porrada "Sexy Lenore", um "sub hit" barulhento e legal pra caralho!

                     O Concreteness batalhadores de espaço e de alta frequência no underground dos 90's vem com a alucinação alienígena de "Squinting look (Zemba)", criativos como sempre. O Volkana regravou um hit de Joan Jett sem novidade nenhuma, com exceção a baixa qualidade da gravação, razoável para uma fita demo, péssima para um CD, verdade seja dita, o Volkana era uma banda muito mediana e que recebeu repercussão aquém do que podia apresentar, será que era pelo fato de ser uma banda de garotas fazendo heavy metal? Creio que sim. O Safari Hamburguers com "Shelter of a fool" mostra um hardcore com bastante melodia. O Planet Hemp, que logo gravaria seu primeiro álbum e ganharia espaço na mídia por conta das polêmicas criadas em relação às suas canções, aparece aqui com uma das melhores músicas desta coletânea, "Puta disfarçada", obviamente ela não fala sobre maconha, e a música incidental "Repelente" do DeFalla é uma bela homenagem a influência confessa em grande parte das bandas do Rio. Speedfreaks e Black Alien fazem "Hit hard hip hop", um rap com boa batida, mas que se perde na letra que mistura inglês e português, ratifica a existência da Hemp Family. 

                        O Low Dream, considerada por muitos como a melhor guitar band brasileira, surge com "Treasure", também presente em seu primeiro disco. O Killing Chainsaw fazia shows imperdíveis e já carregava alguns fãs, além de um excelente LP lançado em 1992, "Evisceration" é um "hit", gravada primeiramente pelo Pin Ups no LP "Scrabby?". Make Believe é a única banda do Rio Grande do Sul, sonoridade de guitar band inglesa e letras em inglês. O Brother Rapp vem de Juiz de Fora/MG e tem um trabalho influenciado na escola Mike Patton, "Blackman" tem um instrumental de primeira, teclado bem sacado, peso, porém o vocal não demonstra muita criatividade e a letra em inglês não diz nada. O Intense Manner of Living (IML) traz "Change the verbs", o onipresente triângulo, aqueles de forró, fez bem à canção. O Tube Screamers é a mais punk/HC, "Seizure" tem bastante melodia nos vocais e na guitarra. Para encerrar surge novamente o Gangrena Gasosa com um remix de "Araizé".

                O álbum foi um projeto do jornalista e entusiasta do underground nacional daquele s tempos, Marcel Plasse, que criou o selo Caffeine e selecionou as bandas. A masterização ficou a cargo de RH Jackson, com anos de bagagem no underground paulistano. O projeto gráfico bastante caprichado é do ilustrador e cartunista MZK, o encarte não traz as letras, mas tem informações sobre as bandas.

             Pode-se afirmar sem medo que a boa quantidade de bandas independentes espalhadas pelo Brasil era tanta, que uma edição da coletânea como esta era pouco, logo providenciaram o CD Volume 2 destas bandas sem grandes gravadoras.

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terça-feira, 3 de abril de 2012

Aristhóteles de Ananias Jr (Grenal Records, 1996)



              O trio formado em Porto Alegre/RS por Marcelo Birck (guitarra e voz), Pedro Porto (baixo) e Luciano Zanatta (sax alto) fez muito barulho entre as bandas locais durante a década de 90. Deixou este, que é seu único disco que é a também a estreia do selo Grenal Records, propriedade de Marcelo Birck.

              De antemão, um aviso: é difícil descrever este álbum, pois não segue nenhum padrão, não pertence a gênero específico, mas tem um sax onipresente. É um trabalho construído em estúdio, com total liberdade de criação, algo como um free-jazz-noise, mas tem bolero "Grenal do amor" e heavy das cavernas futebolísticas "Futebol metal". "Trilha sem rumo" tem a voz de Plato Divorak e "Bico de pato" traz uma versão diferente da apresentada na coletânea "Segunda Sem Ley" (Banguela, 1995).

              O projeto gráfico de Victor Cecatto é bastante caprichado, cheio de ilustrações de alienígenas, discos voadores, futebol e extraterrestres, o que remete ao conteúdo das letras que não estão no encarte.

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